Arq & Decor

voltar

Feira de Santana precisa se tornar uma cidade mais humanizada, alerta o artista plástico Jorge Galeano

Em entrevista à revista Sacada, o artista falou sobre o início da carreira, sobre a vinda ao Brasil, sobre a sua concepção de moradia e sobre as técnicas artísticas e artesanais que desenvolveu ao longo da carreira


13/04/2015 08:15
Feira de Santana precisa se tornar uma cidade mais humanizada, alerta o artista plástico Jorge Galeano Foto: Arquivo Jorge Galeano

por Isis Moraes

Radicado em Feira de Santana há mais de 20 anos, o artista plástico argentino Jorge Galeano construiu aqui, nas cercanias do bairro Pampalona, o seu pequeno refúgio tropical, fonte inesgotável de inspiração para a composição de telas que chamam a atenção pela exuberância.

Povoadas por personagens míticas e paisagens envolventes, pintadas quase sempre com cores quentes e vibrantes, as obras de Galeano ganharam destaque internacional. Em março de 2014, convidado pela Secretaria de Cultura de Cuenca, o artista expôs no Equador a série Trópico Utópico, em que voltou a trabalhar o tema do desmatamento e da destruição da natureza.

Em entrevista à revista Sacada, o artista, que há muito também trabalha com arte aplicada à decoração, juntamente com renomados arquitetos que atuam na cidade, falou sobre o início da carreira, sobre a vinda ao Brasil, sobre a sua concepção de moradia e sobre as técnicas artísticas e artesanais que desenvolveu ao longo da carreira, como é o caso da azulejaria, do mosaico e da escultura em terracota.

Galeano abordou ainda questões caras ao seu estilo de vida e ao seu cotidiano, como a sustentabilidade, a preservação ambiental e a mobilidade urbana. Em relação a Feira de Santana, cidade que escolheu para viver e onde começou a pintar, o artista falou sobre a destruição do patrimônio arquitetônico, sobre o funcionamento da cidade, sobre os projetos artísticos que desenvolve aqui e sobre o sonho de transformar a sua casa em um centro de artes para crianças carentes. 

Sacada – Como começou nas artes plásticas?
Jorge Galeano –
Com 17 ou 18 anos, época do movimento hippie, eu tinha uma moto e viajava pela Argentina vendendo artesanato e outras obras. Esse foi meu primeiro contato com a arte. Eu sou um artista que – por ter sido artesão e por ter trabalhado com vários materiais, como madeira, couro e metais – aprendeu a dominar as próprias mãos. Se eu tiver que utilizar o ferro para realizar um trabalho, não preciso mandar fazer, porque sei como se faz, sei trabalhar com solda, assim como sei esculpir uma madeira. Então, isso deu uma versatilidade maior à minha obra. Atualmente, estou trabalhando com azulejaria e sei como funciona um forno, sei qual é a temperatura, o material que preciso usar, porque já trabalhei com o esmalte de alta temperatura quando era ainda um artesão. Isso é uma grande vantagem, porque é difícil você encontrar um artista que domine os materiais, que saiba qual é a ferramenta própria para moldar cada um deles. Muitas vezes, os artistas apenas fazem os projetos e mandam executar tudo.

S. – Mas, além dessa formação autodidata inicial, você também cursou a faculdade de Belas Artes na Argentina, não?
J.G. –
Sim. Entrei na Escola de Belas Artes com 19 anos. E ali descobri realmente o meu mundo, porque encontrei uma centena de pessoas parecidas comigo. Foi um período maravilhoso. Como era artesão, os professores me levavam como ajudante. Foi aí que comecei a ver como era esculpir, como era fazer um afresco numa parede. A partir disso, comecei a trabalhar restaurando pinturas em igrejas, sempre para pagar meus estudos. Fui adquirindo um conhecimento prático grande em todas as técnicas, principalmente na aquarela, que hoje utilizo mais. Quando me formei, em 1978, a Argentina estava sob domínio militar. Foi a época mais dura vivenciada pelos argentinos (entre 1976 e 1983 os militares assassinaram cerca de 30 mil civis, entre eles crianças e idosos, segundo estimativas de ONGs argentinas e organismos internacionais de defesa dos Direitos Humanos). Então, muita gente acabou saindo do país. Eu não saí por causa da Ditadura, mas o clima estava tão pesado que decidi sair e viajar pelo mundo. Muitos amigos meus foram para a Europa. Eu saí junto com um quinteto de música latino-americana, porque também sou músico. Viajamos pela costa do Brasil, passamos pela Amazônia e entramos no Peru, onde o pessoal começou a se dispersar. Uns foram para o México, outros para a Europa e eu voltei sozinho para o Brasil, mais especificamente para a Bahia, porque tinha gostado muito daqui. Em Salvador, fiz a minha primeira exposição, com a artista plástica Lígia Aguiar. Assim comecei a minha carreira artística, ainda sem uma linguagem própria, com muitas influências... Só em Feira de Santana, quando me mudei para cá com minha filha, que tinha um ano à época, é que comecei realmente a pintar. Posso dizer, então, que sou um pintor feirense, mas feirense mesmo. Às vezes, é doloroso para mim que façam homenagens a pintores feirenses e não incluam o meu nome. Eu comecei a pintar aqui, como Carybé começou a pintar em Salvador. E ninguém diria que Carybé é argentino... Carybé é um artista baiano. Apesar de a arte ser completamente cosmopolita, internacional e globalizada, faço questão de dizer que comecei a pintar em Feira de Santana.

S. – Ao longo desses anos, foram muitas exposições. Queria que falasse um pouco sobre a sua trajetória.
J.G. –
Quando comecei a expor em Feira, as pessoas passaram a conhecer o meu nome. Já tinha saído um pouco do regional... Foi quando concorri a um cartaz da Micareta, em 1991, ganhando o primeiro prêmio. Foi um estardalhaço enorme, saiu em televisão, em jornais locais, repercutindo até mesmo no sul do país. E isso me deu um nome. A partir daí, comecei a me lançar mais como Galeano.

S. – Além de trabalhar com pintura tradicional sobre tela, você trabalha com outros suportes. Produz azulejos, mosaicos, esculturas em terracota e intervenções artísticas em bancos de praça, ruas, tapumes. Fale um pouco sobre esses trabalhos.
J.G. –
O grafismo de rua nos tapumes que cercam o Museu Regional de Arte de Feira de Santana, atualmente em reforma, foi feito durante o Aberto do CUCA, um evento de arte produzido pelo centro. O interessante é que teve a participação da população. Fiz um desenho como quem desenha no ar, só com fita adesiva. Depois, convidei as crianças e os adultos presentes a pintarem sobre a área que eu tinha coberto. Quando acabaram, tirei as fitas e o resultado foi exatamente um desenho que tinha projetado na mente, mas que, inicialmente, não sabia como iria ficar. Um trabalho fantástico! Tenho outras obras em prédios públicos, como por exemplo na Capela Nossa Senhora do Carmo, localizada no bairro Serraria Brasil, onde fiz um grande painel em mosaico. Coloquei pedrinha por pedrinha. Eu e o pedreiro ficamos pendurados lá uma semana. E olha que morro de medo de altura (risos)! Também deveria ter um trabalho monumental meu na rodoviária de Feira de Santana, porque, em 2005, ganhei o Prêmio Portal do Sertão, promovido pela Sinart (Sociedade Nacional de Apoio Rodoviário Turístico), Prefeitura de Feira de Santana e Uefs, para criar um painel intitulado Boa viagem. Essa obra teria 30 metros quadrados de área e seria instalado numa das paredes laterais da Estação Rodoviária, na Avenida Presidente Dutra. Uma TV local fez uma matéria comigo, os jornais e sites noticiaram, recebi o pagamento, mas, infelizmente, não viabilizaram a obra. E no lugar construíram vários boxes comerciais. Tenho obras também em prédios privados, como é o caso da Galeria Carmac, onde pintei um grande painel, e no Edifício Sawaya, onde fiz um trabalho em mosaico.

S. – Você produziu uma série de esculturas em terracota. Foi a primeira vez que trabalhou com esse material?
J.G. –
Sim. Eu estava trabalhando muito com a natureza, quer dizer, com o que resta da natureza... Criei, então, um conjunto de esculturas em terracota, ao qual dei o nome de Pássaros Furiosos. São pássaros com expressões de preocupação, histeria e fúria, porque são bichos que já não têm mais árvores, que já não têm onde morar. É uma série muito legal, uma espécie de Movimento dos Pássaros Sem-teto (risos).

S. – E são peças com uma clara influência da arte andina...
J.G. –
Sim, também. Mas isso foi bem inconsciente, porque, quando se começa a produzir um trabalho, não se pensa na origem, mas, de alguma forma, ela vem à tona. São ícones, arquétipos, raízes culturais, com os quais voltei a me reencontrar recentemente quando realizei uma exposição em Cuenca, no Equador.

S. – A exposição individual Trópico Utópico trata de que tema, especificamente?
J.G. –
Essa série, composta por 20 telas confeccionadas em pequeno formato (40 cm x 40 cm), nasceu, assim como a Suíte Pampalona, realizada anteriormente a partir do jardim que construí em minha casa. Quando cheguei ao bairro onde moro, não havia nada. Era uma terra completamente pelada. Foi então que tive a ideia de cavar um poço artesiano e de replantar as espécies da mata nativa. Comecei a criar o meu mundo. Quando as árvores e plantas cresceram, animais como sariguês, micos, pássaros e aranhas voltaram naturalmente ao lugar de origem. Hoje, meu jardim é um espaço vivo, é a minha utopia. E é nele que me inspiro para criar meus quadros. Mas não criei esse jardim para mim mesmo. Eu o criei para os idosos sentarem, para os jovens namorarem, para as crianças brincarem. Por isso, em frente à minha casa, fiz também uma pequena praça. Pensei que isso iria inspirar os vizinhos a copiarem a ideia, a plantarem mais árvores, mas ninguém fez isso. Ao contrário, cortaram as outras árvores que existiam nas proximidades, de modo que o meu jardim subsistiu como uma espécie de ilha. É absurda a relação que as pessoas têm com a natureza aqui em Feira de Santana. Na cultura andina, as pessoas têm um respeito muito grande pelo solo, pela Pachamama, como eles chamam a mãe terra. São incapazes de cortar uma árvore, a não ser que seja estritamente necessário. E essa conscientização é uma luta constante para mim, de modo que, no futuro, gostaria de transformar a minha casa em uma espécie de fundação para as crianças e adolescentes que vivem nas redondezas e nos bairros mais afastados da cidade. Com isso, eles poderiam ter acesso a uma biblioteca, a aulas de pintura e a outras atividades artísticas.

S. – Em sua opinião, Feira de Santana ainda trabalha mal a questão ambiental?
J.G. –
Não trabalha! Sinceramente? Não trabalha! Uma vez, não lembro quando, vi um secretário de meio ambiente afirmar que “quando alguém planta uma árvore, está plantando um problema”. Se um secretário de meio ambiente diz isso, o que se pode esperar da população? Se há apenas uma árvore, todas as pessoas ficam embaixo, como se ela fosse um guarda-sol. Ninguém pensa em plantar outras... Aqui, as árvores são podadas no verão. Se as árvores nos protegem do sol, como se pode podá-las no verão? Essa mentalidade é absurda. Não consigo entender isso.

S. – Seu estilo de vida denota não apenas uma grande preocupação ambiental, mas também a consciência acerca de um tema que é imprescindível para o ordenamento do espaço urbano de Feira de Santana: a mobilidade. A adoção de práticas sustentáveis e de outros modais de transporte é o caminho para tornar a cidade mais acessível e mais humanizada?
J.G. –
Seria perfeito se todo mundo andasse de bicicleta, mas as pessoas daqui ainda acham que é perigoso. Eu uso a minha bicicleta como meio de transporte há mais de sete anos e jamais tive problemas. Nos países de primeiro mundo, como Holanda e Bélgica, a bicicleta é maioria. Aqui não. Aqui um indivíduo chega ao absurdo de comprar três carros. Ouço reclamações constantes sobre o trânsito, mas, em geral, quem reclama tem três ou mais carros em casa. Então, como podem falar mal se não dão o exemplo? Quem pode falar mal são pessoas que, como eu, andam de bicicleta diariamente.

S. – Mas, de qualquer forma, é difícil transitar de bicicleta aqui, não?
J.G. –
Sim, mas se mais pessoas andassem de bicicleta, o poder público seria forçado a construir ciclovias. Mas quem anda de bicicleta? Eu e os pedreiros (risos)! As pessoas não associam bicicleta a meio de transporte, e sim a lazer. É preciso reverter esse pensamento. Como sou uma pessoa pública, espero dar o exemplo, mas é uma questão ainda muito complicada.

S. – E o transporte coletivo?
J.G. –
Esse é um tema ainda mais polêmico, porque existe no Brasil uma espécie de apartheid violento, mas velado. A classe média não anda em transporte coletivo e não o faz para não se misturar aos pobres. Prefere pegar táxi ou andar a pé. Isso é claro e notório. Se a classe média pegasse ônibus, o transporte seria muito melhor. Em outras cidades, fora do Brasil, pessoas de todas as classes pegam ônibus e exigem o respeito aos seus direitos. Aqui, o transporte coletivo é um dos piores do mundo e as pessoas não reclamam. Se as classes média e alta pegassem ônibus, o serviço seria melhor; se estudassem em colégios públicos, o ensino público seria melhor; se andassem a pé nas ruas, a cidade não estaria esse caos. As classes mais abastadas simplesmente abandonaram a cidade, por isso ela está tão degradada, violenta, suja e ocupada irregularmente por milhares de camelôs.

S. – Com algumas soluções simples, você conseguiu construir uma casa confortável, sustentável e também estilizada, já que aplicou nela diversas técnicas artísticas, como mosaico, pintura, azulejaria e artesanato. Qual a sua concepção de moradia?
J.G. –
Para mim, uma casa é como uma escultura. É preciso ser modelada. A minha casa é um exemplo disso, porque está em constante mudança. Por isso mesmo, digo que ela é uma casa-vida. Eu idealizei um espaço humano, onde fosse agradável morar. Casa é isso! Cada animal faz seu ninho à sua maneira. O ser humano deveria fazer a mesma coisa. Cada pessoa deveria fazer sua casa de acordo com a sua personalidade. Seria maravilhoso se todos pudessem realizar isso, não? Meu sonho é ter uma casa redonda. Uma casa redonda é maravilhosa! Não há ângulos, a vista não esbarra em nada. Vi uma casa assim no Vale do Capão e adorei a ideia. Quero comprar um terreno lá para fazer uma casinha assim. E não sai cara. Fica em torno de 11 mil reais. Quando as pessoas pensam numa casa, visualizam logo porcelanato, laje e diversos outros materiais, aí o orçamento vai para R$ 200 mil. Mas se a ideia é fazer uma casa confortável para morar, isso pode ser feito de maneira mais simples. E nem por isso deixa de ser um espaço vital. Casa é para ser habitada! Tem gente que constrói um palácio e não está em casa nunca. Não entendo isso... Não me vejo em uma casa convencional, nos moldes das casas que fazem aqui. Jamais viveria em uma casa com laje! Isso é uma incoerência, sobretudo quando se pensa que os termômetros marcam 40 graus. Minha casa não tem nenhuma sofisticação e mesmo assim é um oásis no deserto. Fiz espaços com grama e com terra, para a água penetrar. Canalizo a água da chuva para um poço e a devolvo à natureza molhando o jardim. Plantei árvores na parte da frente e na parte de trás da casa e alguns arbustos nas laterais. Não preciso de ar-condicionado, porque tenho uma casa que favorece a circulação do ar e, desse modo, consigo uma temperatura mais agradável que em qualquer outra casa.

S. – Arte e decoração quase sempre andaram juntas. Como você vê essa relação?
J.G. –
Eu gosto muito de arte popular, de coisas bonitas que tenham uma aplicação prática. Empreguei algumas técnicas na minha casa, como essas que você citou anteriormente. Hoje, estou trabalhando com dois arquitetos em Feira, fazendo fontes para residências e mosaicos. Também tenho trabalhado muito com azulejaria, que está em evidência no mercado atual. Há muitas edificações em Feira e é um momento muito bom para nós, artistas, porque as pessoas estão investindo cada vez mais em arte aplicada, como por exemplo azulejos personalizados para espaços gourmet, desenhos em mosaico para fundos de piscina. São coisas que antigamente eu não fazia, porque não havia mercado. Hoje, sim. E depois do evento Casa Cor Feira melhorou ainda mais.

S. – Seus quadros também são frequentemente requisitados para decoração. Algumas revistas de arquitetura, tanto baianas quanto nacionais, já publicaram fotos de espaços residenciais decorados com telas de sua autoria. Em Feira, muitas clínicas e residências têm trabalhos seus. O mercado feirense também está aberto para esse tipo de obra?
J.G. –
De fato, há muitas telas minhas espalhadas pela cidade. E isso desde os anos 90. Eu sempre vendi bem. Teve uma época que fazia consórcio de arte, o que me ajudou muito a sobreviver em períodos difíceis, de grande inflação. Por isso você vai ver muitos quadros meus na cidade. Muitas vezes eu também trocava serviço, porque, para mim, minhas telas são como uma moeda, de modo que até hoje faço trocas.

S. – Você trabalha em um ateliê que está localizado em um dos poucos prédios históricos da cidade. Como se sente trabalhando nesse espaço?
J.G. –
A sala onde está situada a OCA, Oficinas de Criação Artística do Centro Universitário de Cultura e Arte, é um porão que passou muitos anos aterrado. Há outro prédio idêntico do outro lado que ainda está aterrado, só sendo possível entrar nele agachado. Esse daqui foi escavado e disponibilizado, mas ninguém quis utilizar, sobretudo por causa do mofo e dos ácaros. Para mim, foi ótimo, porque é um espaço muito legal, mesmo não sendo muito bom para a pintura, em função da pouca iluminação. Tentei compensar isso instalando refletores, mas ainda não é o ideal, porque as condições de luminosidade mudam muito as cores, mas tem um clima que me agrada, um clima criativo, de mosteiro, de silêncio. Eu gosto muito de trabalhar aqui.

S. – Quais projetos são desenvolvidos nesse espaço?
J.G. –
São realizadas oficinas de pintura, desenho, cerâmica, escultura, fotografia e arte para crianças. Aqui produzi as esculturas da série Pássaros Furiosos e pretendo retomar o trabalho com terracota, porque há um forno maravilhoso, que está sendo subutilizado. Tenho muita vontade de implantar também um projeto de cinema, para exibir filmes de arte pelo menos uma vez por semana. Outra ideia é utilizar esse espaço para realizar lançamentos de livros e sessões de Jazz. Esses projetos já foram passados para a diretoria da instituição e estão sendo amadurecidos.

S. – Como você vê a relação de Feira de Santana com o patrimônio arquitetônico?
J.G. –
Praticamente não há mais patrimônio arquitetônico em Feira de Santana. Esse prédio, por exemplo, quase foi demolido. Na época, funcionava aqui apenas o Seminário de Música de Feira de Santana, mas de modo precário, já que não havia luz e a estrutura estava caindo aos pedaços. Foi então que o professor Josué Mello, ex-reitor da Uefs, tomou a iniciativa de implantar aqui esse centro de artes, uma ideia realmente brilhante, que muito contribui para impulsionar a cultura na cidade. Além desse prédio onde o Cuca está instalado e do Casarão Fróes da Motta, também restaurado, só me lembro de mais duas ou três edificações antigas, que não sei até quando permanecerão de pé. Isso é um absurdo! Nos anos 90, li, em um famoso jornal da cidade, um artigo de um jornalista que defendia a ideia de que “lugar de velharia é no museu”. Sob esse argumento desprezível, ele afirmava a necessidade de todos os prédios antigos serem demolidos para darem lugar ao “progresso”. Eu tento dar a minha contribuição, mas fico realmente horrorizado. Aqui ao lado havia várias casas muito bonitas, que foram demolidas para nada, para darem lugar a prediozinhos quadrados, que não são nada, que se transformaram em lojas chinesas, estacionamentos... Isso é terrível! A cidade não tem memória mais. Feira tinha tudo para ser uma cidade única, com mananciais de água pura, com casarios antigos... Se os comerciantes fossem minimamente inteligentes, teriam aproveitado as fachadas de todas as casas. Isso atrairia clientes e turistas, que viriam ver a cidade. Essa ideia de modernização é equivocada. Não é moderno destruir o patrimônio arquitetônico. É moderno mantê-lo e harmonizá-lo com o tempo presente.

S. – Em sua opinião, o que é necessário mudar em Feira de Santana?
J.G. –
Feira de Santana precisa se tornar uma cidade mais humanizada. O trânsito é caótico, as pessoas não têm o mínimo de paciência. Falta solidariedade. Solidariedade com o vizinho, com os idosos, com a rua onde se mora, com a própria cidade. Só assim Feira poderá ser melhor no futuro.

 

Entrevista publicada na versão impressa da revista Sacada.

Feira de Santana precisa se tornar uma cidade mais humanizada, alerta o artista plástico Jorge Galeano
Feira de Santana precisa se tornar uma cidade mais humanizada, alerta o artista plástico Jorge Galeano
Feira de Santana precisa se tornar uma cidade mais humanizada, alerta o artista plástico Jorge Galeano
Feira de Santana precisa se tornar uma cidade mais humanizada, alerta o artista plástico Jorge Galeano

leia também

VER TODAS ›
LEIA EDIÇÃO IMPRESSA › Deslumbre traduzido em madeira, vidro e pedra.

Deslumbre traduzido em madeira, vidro e pedra.

Anunciantes

® 2020 Sacada. Todos os Direitos Reservados
Tacitus Tecnologia

Parceiros

  • ADEMI-BA
  • Sinduscon
  • CRECI
  • ABAF
  • Ebade