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O aprendizado de Ciências na escola: as frases de efeito educam as crianças?

*Soraya Carvalhedo Honorato


05/07/2021 08:53
O aprendizado de Ciências na escola: as frases de efeito educam as crianças? Foto: Divulgação/Soraya Carvalhedo Honorato

Eu me emociono quando escrevo, porque ando guardando uma inquietude infinita. Eu me pergunto... O que serão de nossas crianças neste mundo em que o Antropoceno configurou e dita as regras, sem a preocupação de ultrapassar os limites da sustentabilidade?

Sou mãe de uma garotinha de sete anos, conforme escrevi em outra ocasião. Delego aos cuidados da miúda o compromisso amoroso para com a vida dos humanos e dos não-humanos!

Eu quero, e quero muito, que ela compreenda: tudo na natureza é imprescindível para a saúde dela, dos que ela ama, dos que a sucederão!

Durante este período pandêmico, nós, membros familiares, temos sido professores. E eu respiro fundo na passagem de cada conteúdo! Como envolver a criança, mais e melhor, nesta dialógica para o bom aprendizado?

Vamos às Ciências! Ah! Como eu amo construir com ela e nela, cada um dos temas! Entretanto, confesso que o desafio parece abissal porque o material didático que detenho em mãos ainda é tão impotente! Mal descortina aos olhos das crianças a real e total dependência da humanidade à conservação dos recursos naturais.

Leiamos meus motivos. O livro bem abordou sobre os animais úteis e nocivos. Enfatizou como estes animais úteis são necessários para a humanidade. Todavia, devo destacar! O conteúdo citou apenas os animais domésticos e manejáveis que nos oferecem produtos e subprodutos: carnes, couros, seda, serviços de transporte e lazer. Não serei injusta. Há uma redenção! Furtem-se de matar as cobras para evitar desequilíbrio ecológico, posto que elas se alimentam de roedores como os ratos. Dizia o livro.

Outra incoerência. O material didático apresentou a formiga unicamente como uma praga que destrói as plantas! Com razão até certo ponto! Por exemplo, em ambientes com interações ecológicas alteradas, de cultivares agrícolas, formigas cortadeiras devastam plantações de arbustos ou árvores em poucos dias1. Formigas também podem transmitir toxoplasmose 2 em ambientes urbanos, inclusive.

Mas o mundo é vasto como também é o mundo dos insetos, incluindo as formigas! Portanto, há espécies de formigas que podem se comportar como pragas, sim. Ou não. Na contramão, há outras tantas formigas que se comportam como predadoras de pragas agrícolas3 e vigorosas polinizadoras4, permitindo a floração e frutificação de alimentos que chegam às nossas mesas.

Voltemos às incoerências no livro de Ciências da pequena Isabel Maria! No capítulo denominado “Animais Ameaçados de Extinção”, me decepciono integralmente e reflito! O texto diz que o ser humano tem uma grande responsabilidade não só pela extinção dos animais, mas pela destruição das matas, dos mangues, dos litorais e de outros ambientes. Instrui como as crianças devem evitar que os animais sejam extintos: conservar o ambiente em que eles vivem, evitar a caça predatória, evitar a compra de animais silvestres, não pescar no período de desova. Arremata o conteúdo dizendo que tudo isto desequilibra o meio ambiente. Correto e incompleto até aqui. Quais implicações diretas tudo isto tem nas vidas da menina Isabel, das outras crianças, dos pais dessas crianças?

Ao final da lição, eu pergunto: Bebel o que você aprendeu?

E ela responde, assim, com as palavras dela: a gente tem que respeitar o meio ambiente... pra conservar a casa dos animais!

Caros leitores, vocês acreditam, sinceramente, que estas frases de efeito, assim abordadas no conteúdo escolar, estimulam as percepções das crianças para compreenderem que suas necessidades dependem, como um todo, dos serviços dos bichos, do mato, dos rios, dos oceanos, da atmosfera? Que são estes tais serviços que garantem a água, o alimento, o ar puro, as chuvas? E sem eles nada somos e nada temos?

Queridos pais e educadores, a percepção das crianças deve ultrapassar os limites das frases postas. Tal como esta de que preservar o meio ambiente é importante porque é o ambiente dos bichos e para os bichos! O meio ambiente também é a casa da humanidade e conservá-lo é seguro de vida para a perpetuação da espécie humana. Ou conservamos, ou seremos todos extintos! Isabel Maria e as demais crianças, futuras tomadoras de decisões e fazedoras de políticas públicas, pouco aprendem e nada apreendem sobre a imprescindibilidade da conservação da natureza! Não nestes termos!

A mensagem que devemos impregnar nas mentes e corações de nossas crianças é que os bichos e o "mato" nos prestam serviços, muitos dos quais nós, seres humanos, jamais seremos capazes de nos ofertar! E esta é a lógica do raciocínio que muda tudo! Não falaremos aqui novamente sobre o desmatamento, implicando em secas, oriundas das mudanças climáticas, que comprometem os níveis de água nas hidrelétricas5, impactando negativamente nossas economias. Tampouco falaremos das secas e extremos de calor que impactam, por exemplo, a produção leiteira, em regiões do Rio Grande do Sul com clima tradicionalmente ameno6. Não me aterei às milhares de pessoas acometidas de doenças cardiopulmonares ou metabólicas e óbitos resultantes da poluição atmosférica7. Vou me reservar em trazer um milímetro da vasta imensidão de animais e plantas que nos livram de todo o mal!

Darei dois casos simples como exemplo. Um de mato. Outro de bicho!

Lembra-se da cantiga? Sapo Cururu, na beira do rio. Quando o sapo canta, ô maninha, é porque tem frio... Este sapo Cururu transcende o imaginário infantil porque ele existe! Em pesquisa recente, um composto bioativo, presente nos venenos dos sapos cururus Rhinella marina e Rhaebo guttatus, animais silvestres amazônicos, portanto dependentes de habitat natural, tem se demonstrado como um eficiente antídoto para a cura da malária8 e do câncer de mama9 que ceifam as vidas de milhares de pessoas. A pesquisa avalia as atividades antimaláricas e antitumorais do biocomposto10.

A erva-baleeira (Cordia verbenacea) é a base de um anti-inflamatório tópico, feito a partir do extrato de uma planta originária da Mata Atlântica, similar a outros antiinflamatórios, oriundos de plantas medicinais da África e de outros países. Em testes clínicos, o biocomposto confirmou ser eficaz e seguro para os casos de tendinite crônica e dor miofascial. A ação do alfa-humuleno como anti-inflamatório foi comprovada tanto nos testes pré-clínicos, em camundongos, como nos clínicos, em humanos. Seu efeito no organismo é o mesmo quando comparado ao uso do principal anti-inflamatório do mercado que tem o diclofenaco dietilamônio como princípio ativo11.

Caros pais e professores! Prestem atenção no sapo Cururu. Ele é bem mais capaz do que apenas ninar as crianças. O sapo cururu e as milhares de outras espécies de plantas e bichos que habitam o bioma em que ele vive podem salvar vidas humanas. Esta é a lição que deve ser aprendida!

 

Soraya Carvalhedo Honorato*
Diretora Executiva do Instituto Sucupira de apoio à Pesquisa e Ensino em Ecologia e Agricultura: serviços ecossistêmicos. Empreendedora Rural na Fazenda Sucupira Engenheira Florestal, Universidade Federal de Viçosa - UFV Mestre em Ciências Ambientais, Universidade Estadual de Santa Cruz - UESC Doutoranda em Ecologia: Teoria, Aplicação e Valores, Universidade Federal da Bahia – UFBA Membro do Laboratório de Ecologia Aplicada à Conservação - LEAC/UESC Aperfeiçoamento no Land Policy for Sustainable Rural Development, International Center for Land Policy Studies and Training, Taiwan, República da China

 

Referências Bibliográficas
1FILHO, Wilson Reis et al, Comunicado Tecnico formigas cortadeiras iLPF, Comunicade técnico 331, p. 1–7, 2013.
2 AMENDOEIRA, Maria Regina Reis; COURA, Léa Ferreira Camillo, Uma breve revisão sobre toxoplasmose na gestação, Scientia Medica, v. 20, n. 1, p. 113–119, 2010.
3 GRAS, Pierre et al, How ants, birds and bats affect crop yield along shade gradients in tropical cacao agroforestry, Journal of Applied Ecology, v. 53, n. 3, p. 953–963, 2016.
4 DEL-CLARO, K. et al, Ant pollination of Paepalanthus lundii (Eriocaulaceae) in Brazilian savanna, Annals of Botany, v. 123, n. 7, p. 1159–1165, 2019.
5 DA SILVA, Marx Vinicius Maciel et al, Projection of Climate Change and Consumptive Demands Projections Impacts on Hydropower Generation in the São Francisco River Basin, Brazil, Water, v. 13, n. 3, p. 332, 2021.
6 OLIVEIRA, Z. B. et al, cenários de mudanças Climáticas e seus Impactos na Produção Leiteira no Sul do Brasil, Brazilian Journal of Biosystems Engineering, v. 12, n. 2, p. 110–121, 2018.

7 DE PAULA SANTOS, Ubiratan et al, Environmental air pollution: Respiratory effects, Jornal Brasileiro de Pneumologia, v. 47, n. 1, p. 1–13, 2021.
8 SOUZA, Brandon Vidal de, Histórico dos aspectos epidemiológicos e análise de intervenções de saúde pública efetivas no controle da malária no Brasil / History of epidemiological aspects and analysis of effective public health interventions in malaria control in Brazil, Brazilian Journal of Health Review, v. 4, n. 1, p. 1521–1355, 2021.
9 PEREIRA, Leonilson da Silva et al, Mortalidade por câncer de mama: caracterização e linha de tendência na região nordeste do Brasil, Research, Society and Development, v. 9, n. 2, p. e138922191, 2020.
10 BANFI, Felipe Finger et al, Antiplasmodial and Cytotoxic Activities of Toad Venoms from Southern Amazon, Brazil, The Korean Journal of Parasitology, v. 54, n. 4, p. 415–421, 2016; FINGER BANFI, Felipe et al, Dehydrobufotenin extracted from the Amazonian toad Rhinella marina (Anura: Bufonidae) as a prototype molecule for the development of antiplasmodial drugs, Journal of Venomous Animals and Toxins including Tropical Diseases, n. January 2021, p. 1–16, 2021.
11 ERENO, Dinorah, Da natureza para a farmácia, Revista FAPESP, p. 78–81, 2005.
 

 

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