Casarão Fróes da Motta: a preservação da memória urbana de Feira de Santana

Inspirado na arquitetura alemã, imóvel é considerado a joia da Princesa do Sertão

O Casarão Fróes da Motta, localizado no centro de Feira de Santana, foi construído no início do século XX e permanece como um dos poucos exemplares preservados de arquitetura residencial urbana desse período na cidade. 

Seus registros apontam para o ano de 1902 como data de construção. De acordo com Carlos Brito, secretário de Planejamento do município e membro do Conselho Curador da Fundação Senhor dos Passos, atual responsável pelo imóvel, a história da casa começa com seu idealizador, o coronel Agostinho Fróes da Motta, então exportador de fumo.

Durante uma viagem à Alemanha, o coronel visitou Hamburgo e se deparou com uma bela residência cuja arquitetura chamou sua atenção. Brito explica que ele “trouxe uma planta igual para fazer sua casa aqui”. A obra permaneceu fiel ao projeto europeu original, refletindo o repertório cultural e econômico do proprietário, que se destacava entre os grandes comerciantes da Bahia da época.

A morte do coronel em 1922 levou o imóvel às mãos do filho, o médico Eduardo Fróes da Motta, que retornou do interior de São Paulo para cuidar dos negócios da família. Ele também foi o responsável por finalizar elementos que hoje compõem o caráter artístico do casarão. Segundo Brito, o espaço hoje preservado “ainda se mantém na sua originalidade”.

Antes de sua restauração, o casarão enfrentou um longo período de abandono. O imóvel estava fechado, tomado por mato, sem manutenção estrutural. A aquisição pela Fundação Senhor dos Passos, entidade de caráter cultural e social criada no âmbito da paróquia homônima, foi um marco decisivo para sua preservação.

A entidade elaborou um projeto via Lei Rouanet, que dependia de aprovação federal e de articulações estaduais e municipais. A restauração ocorreu em etapas, conforme surgiam recursos oriundos de empresas apoiadoras, como a Petrobras, Belgo, Pirelli e Primor. A restauração do casarão demandou intervenções estruturais, reparos em elementos artísticos e adequações gerais na área, cujo terreno conta com cerca de 1.747 m².

A preservação contínua inclui manutenção predial, atualização de pintura e uso programado dos espaços. A Fundação mantém o imóvel ativo com recursos provenientes de projetos incentivados, doações, pequenas taxas e parcerias com entidades públicas e privadas.

Com a restauração concluída, o casarão passou a cumprir um papel cultural. Ele abriga eventos, exposições, lançamentos de livros, concertos e atividades educativas. A Fundação mantém projetos como “Música no Casarão”, sessões de cinema, exposições fotográficas e o futuro memorial Filinto Bastos. Também está em implantação uma biblioteca dedicada exclusivamente a autores feirenses e obras sobre a cidade.

O imóvel recebe visitas de estudantes e pesquisadores interessados na história local. Brito descreve o espaço como um bem que pertence a Feira de Santana. “Eu digo sempre que esta casa é a joia da coroa da princesa”, afirma, destacando sua importância como testemunho da formação econômica e política de Feira de Santana.  A residência também foi palco de articulações políticas e abrigou lideranças locais ao longo das décadas. Esse conjunto de fatores reforça seu papel como documento histórico material e como referência simbólica para a população.

A manutenção de bens tombados continua sendo um desafio nacional. Brito observa que “os governos tombam os bens, mas não têm verba para manutenção”, defendendo que políticas de incentivo fiscal, como a Lei Rouanet, sejam regionalizadas, de modo a aplicar parte dos recursos gerados pela própria região em sua cultura.

Enquanto isso, a Fundação segue administrando o imóvel com recursos limitados, mas com foco na continuidade das ações culturais. Para Brito, a preservação só se sustenta se for entendida como compromisso coletivo: “A sociedade deve contribuir para manter o que pertence à memória da cidade”.

Filarmônica 25 de Março, Carlos Brito e o novo desafio: a conservação de mais um patrimônio histórico

Fundada há 158 anos, a Filarmônica 25 de Março é uma das instituições culturais mais antigas em atividade na Bahia. Após um período de abandono, a entidade passou por um processo de recuperação, iniciado em 2008, sob a presidência de Carlos Brito, que incluiu a regularização fiscal, o resgate do patrimônio e a reorganização administrativa. A filarmônica desenvolve forte atuação social por meio de uma escola de música, responsável pela formação de jovens músicos, muitos deles hoje integrantes do próprio grupo. 

Com apresentações mensais em festas, celebrações religiosas e eventos públicos, a filarmônica segue como símbolo da memória sonora da cidade. Entre os projetos em curso está a restauração de sua sede histórica, atualmente em estado de ruína. Uma campanha será realizada para mobilizar a comunidade em torno da preservação desse patrimônio cultural. “Esperamos que Feira abrace esse projeto”, conclui Brito.

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