
Desde 2011, o Instituto Pensar Feira (IPF) nasceu com a missão de olhar o futuro de Feira de Santana de forma estratégica, entendendo que o desenvolvimento de longo prazo começa pelas decisões tomadas agora. Foi exatamente esse compromisso que levou o Instituto a ser provocado por docentes da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) para colaborar em uma tarefa de grande relevância: transformar o Centro de Ciência e Tecnologia em Energia e Sustentabilidade (CETENS) em uma universidade federal autônoma, sediada em Feira de Santana.

A partir dessa aproximação, o IPF passou a dialogar com a comunidade acadêmica, técnica e institucional envolvida no projeto. Rapidamente, tornou-se evidente o tamanho da iniciativa e seu impacto potencial para a cidade e toda a região. Em 2023, o tema chegou à pauta do Conselho Consultivo do IPF, composto por cerca de 50 representantes de diversos segmentos da sociedade. A partir dessa reunião, o Instituto tornou-se articulador e parceiro do projeto, consolidando uma mobilização que vem crescendo em densidade técnica, política e social.
Ao longo desse processo, o IPF promoveu encontros estratégicos com figuras centrais e nomes importantes da política a nível municipal, estadual e nacional, bem como palestras com pessoas da história recente da educação superior federal, como o ex-reitor da UFRB Paulo Gabriel Nacif, o ex-senador Walter Pinheiro e a professora Susana Pimentel, protagonistas da criação e expansão da UFRB, universidade que, vale lembrar, nasceu da Universidade Federal da Bahia (UFBA) até tornar-se autônoma em Cruz das Almas. Também organizou a vinda do pró-reitor Freud Romão, membro da equipe de criação da Universidade Federal do Norte do Tocantins (UFNT), a mais nova universidade federal brasileira.
O projeto ganhou ainda mais força ao integrar a Missão Brasília nos anos de 2023 e 2025, que levou cerca de 300 empresários da região à capital federal para apresentar propostas estruturantes para Feira de Santana. A nova universidade foi um dos destaques da agenda, recebendo forte adesão de lideranças públicas, empresariais e sociais.
No dia 24 de novembro de 2025, foi realizada uma audiência pública no Teatro do Centro de Convenções de Feira de Santana para debater oficialmente a proposta de criação da nova Universidade Federal de Feira de Santana. O evento foi promovido em conjunto pelas comissões de Educação e Cultura da Assembleia Legislativa da Bahia e da Câmara Municipal de Feira de Santana, a partir de uma iniciativa do deputado estadual Robinson Almeida em parceria com o vereador Professor Ivamberg Lima. A audiência reuniu parlamentares, representantes da comunidade acadêmica, gestores públicos, estudantes, setor produtivo e sociedade civil organizada, com o objetivo de ouvir contribuições, alinhar propostas e estruturar subsídios técnicos e políticos a serem encaminhados ao Governo Federal para avançar no processo de implantação da instituição.
Um campus consolidado e infraestrutura robusta
O atual campus da UFRB em Feira de Santana, que já funciona há mais de uma década, conta hoje com:
11 cursos de graduação, 2 programas de mestrado profissional e 3 especializações, atendendo cerca de 1.000 estudantes.
Sua infraestrutura física, já pronta, ativa e avaliada em R$ 200 milhões, representa um dos trunfos mais sólidos do projeto. O campus possui: 50 mil m² de área urbana total, 5 mil m² de área construída, com salas de aula, laboratórios, biblioteca, auditório, refeitório, escola, áreas administrativas e de convivência, além de outro terreno com 440 mil m² de área rural, ainda sem edificações, destinada à expansão.
Essa base patrimonial, localizada no SIM foi doada ao projeto pelo Instituto de Educação e Desenvolvimento (INED), com anuência da Prefeitura Municipal. Somam-se a isso investimentos de aproximadamente R$ 30 milhões anuais, o que reduz drasticamente o investimento inicial necessário para implantação da universidade federal.
Demanda regional e o déficit histórico do ensino superior público
A realidade de Feira de Santana e do Território Portal do Sertão evidencia um cenário crítico: embora a cidade seja a 34ª maior do Brasil e exerça influência direta sobre mais de 80 municípios, cerca de 1,2 milhão de habitantes, o acesso à educação superior pública permanece restrito. A Bahia possui apenas 14,4% de seus estudantes de graduação matriculados em instituições federais, enquanto 76% estão no setor privado. Na sede da região que será contemplada pela nova universidade, o cenário é ainda mais preocupante: considerando UEFS, IFBA, CETENS/UFRB e UNEB, apenas cerca de 8% dos jovens entre 18 e 24 anos estão matriculados no ensino superior público, muito distante da meta nacional de 33% estabelecida. Ou seja, o principal gargalo não é a falta de demanda, mas sim a insuficiência de vagas públicas disponíveis. Por isso, o IPF destaca, é preciso criar a oferta para que a demanda reprimida possa se materializar.
A urgência de uma universidade federal própria
O PIB da cidade é de cerca de R$ 17,2 bilhões de reais (Feira de Santana, 2024), estando em 3º no ranking estadual. É o maior entroncamento rodoviário do Brasil, principal polo comercial e logístico do Nordeste. Ainda assim, sua inserção no sistema federal de ensino permanece aquém de sua relevância econômica e social.
A UFRB, embora presente no município, opera ali como extensão de um modelo multicampi cuja sede fica a quase 100 km de distância, o que limita sua capacidade de expansão, gestão e atendimento direto às demandas locais.
A criação de uma universidade federal autônoma corrige esse déficit e permite:
- Ampliar o número de vagas públicas no território;
- Fortalecer áreas estratégicas como saúde, engenharias, tecnologias sociais, educação do campo e inovação;
- Promover desenvolvimento sustentável;
- Reduzir desigualdades históricas;
- Modelo acadêmico alinhado ao século XXI;
A nova universidade nasce ancorada em princípios contemporâneos:
- Excelência acadêmica com pluralidade pedagógica;
- Inclusão social e democratização do acesso;
- Sustentabilidade, inovação e governança eficiente;
- Integração com as populações urbanas, rurais e tradicionais;
- Formação com forte vínculo territorial e impacto social.
O projeto prevê cursos de graduação, tecnólogos e pós-graduações em grandes áreas clássicas e disruptivas. A oferta será construída com audiências públicas, oficinas, seminários e visitas técnicas, sempre conforme as necessidades do território. Há ainda um compromisso inédito: desenvolver modelo piloto de ensino integral, com permanência estudantil garantida e meta mínima de 80% de conclusão dos cursos.
A proposta também inclui:
- Cursos noturnos para trabalhadores;
- Processos seletivos especiais;
- Criação de polos rotativos fora da sede;
- Verticalização formativa para combater evasão escolar.
Reconhecendo que um projeto desse porte não se constrói de forma isolada, foi instituída em 2025 uma comissão de trabalho composta por representantes de universidades, entidades empresariais, movimentos sociais, sociedade civil organizada e governo. Já são cerca de 50 instituições signatárias do compromisso, um sinal inequívoco de união e engajamento regional em torno da proposta.
Diferente de iniciativas genéricas ou improvisadas, esta é uma proposta madura, técnica, financeiramente viável e amplamente validada pela sociedade.
Conclusão: uma universidade para transformar o presente e projetar o futuro
A nova Universidade Federal de Feira de Santana representa mais que uma expansão da rede de ensino: é um projeto estruturante para o desenvolvimento regional e para a redução das desigualdades históricas da Bahia. Inserida no PNE e alinhada às demandas do século XXI, ela nasce como resposta a um clamor social por mais vagas, mais oportunidades e mais investimentos em ciência, tecnologia, cultura, saúde e inovação.
Trata-se de abrir caminhos, e não erguer muros. De construir uma universidade dinâmica, disruptiva, inclusiva e profundamente conectada às necessidades da população urbana, rural e tradicional. Agora, o passo decisivo está na articulação política e institucional. É fundamental que parlamentares municipais, estaduais e federais, independentemente de partido ou ideologia, se somem à sociedade civil para garantir a tramitação e aprovação desse projeto estratégico. A educação, mais uma vez, mostra-se como o instrumento mais potente de transformação. E Feira de Santana está pronta para dar esse salto histórico.
