Boscardin Corsi representa o Paraná na 1ª Bienal de Arquitetura Brasileira com “A Casa que Dança”

Projeto propõe uma leitura contemporânea do morar paranaense a partir da herança modernista, da memória e de uma arquitetura pensada para atravessar o tempo

Há casas que registram uma época. Outras conseguem algo mais raro: seguem atuais enquanto o tempo muda ao redor. É dessa permanência viva que nasce A Casa que Dança, ambiente com o qual o escritório curitibano Boscardin Corsi, comandado por Ana Carolina Boscardin e Edgard Corsi, representa o estado na 1ª Bienal de Arquitetura Brasileira, de 25 de março a 30 de abril, no Parque Ibirapuera, em São Paulo. O projeto parte de uma leitura sensível da arquitetura modernista paranaense e transforma essa herança em experiência contemporânea.

Com 100m², o ambiente se ancora na memória de uma casa profundamente presente no repertório paranaense. A inspiração vem de residências disseminadas pelo estado a partir dos anos 1950, marcadas pela clareza formal, pela integração com a paisagem e por uma elegância contida. Esse imaginário dialoga com a produção do modernismo paranaense, representado por nomes como Vilanova Artigas e Lolô Cornelsen, cujas obras influenciam a concepção do projeto. Em vez de tratar esse legado como lembrança, o escritório Boscardin Corsi o reposiciona no presente, com uma leitura que respeita a origem e reconhece a força da continuidade.

Um dos grandes diferenciais do projeto foi a construção integral de uma casa dentro do espaço da Bienal. Mais do que desenvolver um projeto de interiores, a proposta materializa uma arquitetura completa, permitindo uma experiência espacial mais profunda e coerente, que extrapola os limites expositivos convencionais.

O nome do projeto vem de um verso de Paulo Leminski, escritor e poeta curitibano: “Tudo dança hospedado numa casa em mudança”. A frase conduz a narrativa do ambiente e sintetiza sua essência. A casa se transforma sem perder o que a sustenta. Em um tempo acelerado, o projeto propõe uma arquitetura capaz de receber novas camadas e preservar sua força afetiva e cultural.

Nossa intenção foi revisitar uma arquitetura muito presente no imaginário paranaense sem tratá la como memória estática. A casa muda com o tempo, mas segue capaz de acolher, reunir e refletir a vida de quem passa por ela”, afirmam Ana Carolina Boscardin e Edgard Corsi.

A materialidade ocupa um lugar central nessa narrativa. A varanda se destaca como um dos pontos mais marcantes do projeto, com seu piso de concreto pigmentado em vermelho, que evoca a terra fértil do Paraná e estabelece uma transição calorosa entre interior e exterior. Pisos em concreto e madeira, paredes de tijolos pintados de branco e a estrutura aparente preservam a memória da casa modernista, criando uma base sólida para o presente.

Sobre essa base, inserem-se superfícies e elementos escolhidos pela durabilidade, pela beleza que amadurece com o uso e pela relação com o território. O inox surge com precisão, introduzindo contraste e, ao mesmo tempo, complemento — um gesto que reforça a presença do contemporâneo. Esse contraste não é ruptura, mas parte essencial da narrativa: evidencia o encontro entre o antigo e o novo, traduzindo o modo de viver atual de seus moradores.

Nesse contexto, sobras de mármore provenientes de jazidas paranaenses ganham nova vida em peças construídas, revelando uma arquitetura atenta ao tempo, ao reuso e ao valor da permanência.

Em A Casa que Dança, a linguagem da arquitetura se estende ao mobiliário, ao desenho autoral e à arte. Entre os destaques do projeto estão a mesa e os puxadores desenhados pelo próprio escritório, peças que traduzem essa visão de forma sensível e precisa. A eles se soma o banco, reforçando a unidade do conjunto e a ideia de uma arquitetura que se expressa em diferentes escalas.

A dimensão artística atravessa o projeto com delicadeza. Inspirada na obra de Poty Lazzarotto, a intervenção em azulejos assinada por Lenzi introduz cor ao espaço e aquece a composição. Já o banco Toinoinoin, de Jaime Lerner, incorpora ao ambiente uma memória afetiva ligada ao design e à identidade paranaense.

Arte, design e parcerias convergem, assim, a partir de uma mesma origem: o Paraná. Essa escolha reforça o enraizamento do projeto no território e evidencia uma rede criativa local que atravessa diferentes linguagens, ampliando o sentido de pertencimento e continuidade.

Existe um interesse genuíno em pensar a continuidade, tanto na arquitetura quanto nos materiais e nas peças que compõem o ambiente. São escolhas que falam de permanência, mas sem rigidez”, completam os arquitetos.

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