Por Flor Pimentel, especialista em mercado de arte, Diretora de Marketing do iArremate e CEO do Guia das Artes
Caminhar pelos corredores do Pavilhão da Bienal durante a SP-Arte é, antes de tudo, um exercício de apurar o olhar. Entre milhares de obras, algumas exercem um magnetismo inexplicável, são aquelas que pararam o meu passo e que, sem dúvida, eu adoraria ver todos os dias na minha própria coleção.
Minha jornada nesta edição começou diante de uma joia da nossa história: “Terra” (1943), de Tarsila do Amaral. Esta tela a óleo de 60 x 80 cm é um exemplar potente da fase social e nacionalista da artista. Com seus tons terrosos e estilo figurativo, Tarsila captura a essência da paisagem brasileira com uma maturidade que impõe respeito. É uma obra que nos reconecta com nossas raízes de forma visceral e nos lembra que a nossa identidade é feita de matéria e memória.
Logo adiante, deparei-me com o radicalismo de Lucio Fontana. Em sua série Concetto Spaziale, Fontana subverte a tradição ao romper a integridade da tela. Para ele, o corte não era um ato de destruição, mas de libertação: ao perfurar a superfície, ele inseria a tridimensionalidade e o espaço real na pintura. É um silêncio que grita, lembrando-nos que a arte também acontece no vazio e na abertura para o infinito.
Esse contraste entre a matéria e o espaço marcou minhas escolhas seguintes: os fragmentos históricos e marítimos de Adriana Varejão, onde a tradição da azulejaria carrega séculos de herança colonial, e o rigor técnico das esculturas de aço de Wolfram Ullrich, que desafiam a gravidade com uma geometria que parece flutuar.
O lúdico ganha força total com a energia pulsante d’Os Gêmeos, que unem seu universo onírico à tecnologia das luzes de LED, e com o surrealismo vibrante de Chico da Silva, De muros de cal em Fortaleza à consagração na Bienal de Veneza, seus bichos fantásticos continuam pulsando uma energia única, conectando a terra ao extraordinário.
Minha seleção percorre ainda a espiritualidade profunda de Ayrson Heráclito, na serenidade ritualística de sua fotografia, e a precisão hipnotizante de Camille Kachani, que reconstrói paisagens inspiradas em Frans Post com um detalhamento que nos faz viajar no tempo.
Para os amantes da textura, a densidade de Crosta I, de Mariene Almeida e a interatividade de Celina Portella, que brinca com os limites da moldura, mostram a vitalidade da produção contemporânea. E, para encerrar esta curadoria afetiva com chave de ouro, a coleção de joalheria assinada por Pablo Picasso. Encontrar o traço inconfundível do mestre cubista em peças de ouro é a prova de que a arte monumental pode, sim, manifestar-se na perfeição do detalhe.
Mais do que uma feira, a SP-Arte 2026 reafirmou que a arte é uma conversa contínua entre o passado e o presente. Estas são as minhas escolhas; obras que não apenas ocupam espaços, mas que preenchem o olhar.

