3 usos do BIM que muitas construtoras ainda não exploram

Por Filipe Boito, engenheiro civil e especialista em gestão empresarial na área da construção

Foto: Divulgação

A maioria das construtoras que adotou BIM usa o modelo para uma questão central: compatibilizar projetos. Identificar interferências entre estrutura e elétrica antes de chegar no canteiro. Isso é útil. Mas ainda é um uso que pode ser considerado “mais básico” da tecnologia – e o único que virou commodity e que deixa potencial na mesa. O problema não é usar BIM para compatibilização, o problema é parar aí.

Enquanto algumas empresas usam o modelo tridimensional só para cruzar projetos, três janelas de resultado financeiro direto continuam fechadas. Este artigo abre as três.

Uso inexplorado 1: BIM para orçamentação de viabilidade

Construtoras perdem obras não por preço, mas por velocidade. O cliente pediu proposta, a concorrente respondeu em dois dias, a sua demorou dez. Quando o orçamento chegou, a decisão já estava tomada.

O gargalo quase sempre é o mesmo: sem modelo paramétrico, a extração de quantitativos é manual. Alguém pega o projeto em PDF, interpreta planta por planta, mede área por área, preenche planilha por planilha. Para uma obra de médio porte, esse processo leva de 3 a 7 dias úteis (ou mais). Para uma oportunidade com prazo curto de resposta, é tempo que não existe.

Com o modelo paramétrico configurado, os quantitativos de concreto, aço, alvenaria e revestimentos são extraídos automaticamente. O orçamentista passa de medidor manual para validador do dado. O tempo de resposta cai para um ou dois dias. Em escritórios que padronizaram esse processo, o pré-orçamento de viabilidade é emitido em horas.

O que esse uso revela: velocidade de orçamento é vantagem competitiva antes de ser questão técnica. Construtora que orça rápido aparece mais vezes na mesa de decisão. Aparece mais vezes, fecha mais obras.

Uso inexplorado 2: BIM para projeto de canteiro

O canteiro de obras é projetado duas vezes: uma no papel, e uma na realidade. Na maior parte das empresas, só a segunda versão existe.

Instalações provisórias, baias de materiais, acessos de carga e descarga, fluxo de resíduos – tudo isso é decidido na prática, com o canteiro em andamento, quando mudar já custa caro. O resultado é o que todo gestor conhece: material sendo movimentado duas vezes, caminhão que bloqueia acesso, baia que some, porque virou área de trabalho.

O mesmo modelo usado para coordenar projetos pode simular o canteiro em cada fase da obra: posicionamento de equipamentos em função do cronograma, dimensionamento de baias por fase executiva, simulação de acessos para evitar conflito entre fluxo de pessoas e fluxo de material.

O que esse uso revela: o canteiro mal planejado não aparece como linha no orçamento, mas aparece como improdutividade de mão de obra, horas extras e retrabalho. Projetar o canteiro antes de montar o canteiro é a decisão mais barata que existe, e a menos praticada.

Uso inexplorado 3: BIM para controle de medições

Em obra sem modelo virtual, o controle do que foi pago vive em planilha, isso quando vive em algum lugar. O resultado prático: ninguém tem certeza do status real. O que foi executado? O que já foi medido? O que já foi pago? Essas três perguntas deveriam ter respostas imediatas. Em várias obras (ou na maioria), geram reunião.

O BIM resolve isso com controle visual direto no modelo. Cada elemento – laje, parede, revestimento, instalação – recebe um status: a executar, executado, medido, pago. A visualização é por cores, por pavimento, por frente de serviço. O gestor abre o modelo e enxerga o estado financeiro da obra no espaço físico, não numa tabela de linhas e colunas.

Esse controle visual elimina três problemas de uma vez, que são:

O primeiro é pagar duas vezes o mesmo serviço – por mais incrível que pareça, ainda um erro muito comum em obras longas com múltiplos subempreiteiros e medições mensais acumuladas.

O segundo é o descontrole do que ainda será pago – com o modelo atualizado, é possível projetar o desembolso das próximas medições com base no que está fisicamente a executar. Não em estimativa, mas em quantitativo real de projeto.

O terceiro é a imprecisão das medições – sem modelo, mede-se por estimativa visual. Com modelo, mede-se por quantitativo paramétrico. A diferença entre os dois números define se a construtora está pagando a mais, pagando a menos ou sendo paga corretamente.

O que esse uso revela: controle de medição não é burocracia de contrato, é gestão de caixa. E obra que não sabe o que já pagou não tem como saber o quanto ainda vai gastar.

O modelo já existe, o que falta é uso.

Os três usos descritos aqui não exigem nova tecnologia ou novo investimento. Exigem um deslocamento de mentalidade: parar de usar o modelo BIM somente como arquivo de compatibilização e começar a usá-lo como ferramenta de gestão – de custo, de canteiro e de contrato.

BIM não é tecnologia de engenharia, é tecnologia de decisão. E decisão que chega tarde, ou sem dado, custa exatamente o que a sua margem não pode pagar.

Filipe Boito, engenheiro civil e especialista em gestão empresarial na área da construção – Foto: Divulgação

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