
Criado pela professora Bia Barreto, o projeto Afrobeto utiliza referências da diáspora africana para aproximar crianças do processo de alfabetização e letramento. Desenvolvida na Escola Municipal Cidade Nova, a iniciativa une educação antirracista, fortalecimento identitário e valorização da cultura afro-brasileira no cotidiano escolar.
Mais do que um material didático, o Afrobeto é definido pela idealizadora como uma “tecnologia de afroletramento”. A proposta utiliza elementos da ancestralidade africana, da cultura negra e do cotidiano das crianças para aproximar o processo de aprendizagem da realidade vivida pelos estudantes.

A iniciativa surgiu após um caso de intolerância religiosa dentro da própria escola. Segundo a educadora, uma criança se recusou a aceitar uma bala dada pela diretora da unidade por considerá-la “macumbeira”. A partir desse episódio, por recomendação da professora, a turma passou a pesquisar o significado da palavra “macumba” e referências africanas presentes no cotidiano brasileiro.
“As crianças começaram a trazer elementos como acarajé, berimbau, capoeira, dendê e efó. Cada uma passou a compartilhar um pouco da própria história e das suas vivências. No final, tínhamos uma lista de A a Z construída coletivamente”, contou Bia.




Foi dessa experiência que nasceu o Afrobeto. No lugar de referências distantes da realidade dos alunos, o material passou a trabalhar com palavras e símbolos ligados à cultura afro-brasileira e africana. Entre os exemplos utilizados, estão “A de acarajé”, “B de berimbau”, “D de dendê”, “Q de quiabo”, “S de samba”, “T de tambor” e “Y de yorubá”.
Professora da Escola Municipal Cidade Nova, Bia contou que o projeto também ampliou a compreensão sobre o papel da Educação Física no ambiente escolar. Segundo ela, o corpo também é espaço de construção social, identidade e letramento.
“Hoje, nossas crianças entendem que Educação Física não é só quadra. Muitas vezes elas estão debatendo racismo, intolerância religiosa e questões sociais dentro das aulas. Isso começa a reverberar nas famílias e na comunidade”, disse.
A diretora da escola, Andreia Fernandes, afirmou que o projeto passou a integrar o cotidiano pedagógico da unidade e contribuiu para mudanças na convivência entre os estudantes. A escola atende cerca de 260 alunos. “Vivemos em uma comunidade onde cerca de 90% do público é negro, então precisamos fortalecer a autoestima e o pertencimento dessas crianças. O Afrobeto ajudou muito nisso, porque elas passaram a se reconhecer dentro do material pedagógico”, apontou.
Segundo a gestora escolar, o trabalho desenvolvido pela professora Bia também ajudou a reduzir situações de bullying e preconceito dentro da escola. “A gente percebe uma melhora principalmente nos momentos de recreio, intervalo e educação física, que antes eram os horários em que mais aconteciam esses conflitos”, afirmou.
O impacto do projeto também é percebido pelos alunos. “As atividades fazem a gente se reconhecer mais e entender coisas que antes eu não conhecia”, afirmou Graziele Conceição, de 10 anos. Sofia Gabriela dos Santos, de 9 anos, contou que passou a aprender mais sobre a África e a cultura afro-brasileira por meio do Afrobeto. “As aulas ficam mais divertidas e interessantes”, resumiu.
O Afrobeto, inclusive, já começa a chegar a outras unidades por meio de convites recebidos por Bia Barreto para apresentar a experiência em diferentes espaços educacionais. Segundo ela, o objetivo é ampliar o alcance da iniciativa e fortalecer práticas pedagógicas antirracistas dentro e fora da sala de aula.
Afro Goods – O projeto ganhou ainda um novo desdobramento com o Afro Goods, criado por Bia como uma releitura afrorreferenciada dos tradicionais livros de colorir. Inspirado no fenômeno Bobbie Goods, o material traz personagens negros em atividades ligadas à cultura afro-brasileira.
As ilustrações mostram crianças tocando tambor, jogando capoeira e representando diferentes corporalidades negras. Também há edições temáticas, como o Afro Goods da Malandragem, em homenagem ao Santuário de Seu Zé Pilintra, em Salvador, e o Afro Goods da Copa do Mundo, que propõe discussões sobre representatividade negra no futebol.
“Percebemos que o afroletramento começa antes mesmo da alfabetização. As crianças menores também precisam se identificar nas imagens e nas brincadeiras. Então criamos materiais para trabalhar pertencimento e identidade desde cedo”, explicou a professora.
Reportagem: Mateus Soares / Secom PMS
