Memórias e afetos: a paisagem como extensão de si mesmo

Em “Ser-Terra: paisagens do café”, Gabriela Gazola Brandão investiga a relação profunda entre lugar e sensibilidade a partir das montanhas da Mantiqueira de Minas Gerais

Habitar um lugar nunca é um gesto neutro. As paisagens moldam afetos, comportamentos e modos de estar no mundo, mesmo quando a influência passa despercebida. É a partir dessa premissa que, em Ser-Terra: paisagens do café, Gabriela Gazola Brandão, arquiteta e urbanista, professora e pesquisadora de Geografia Humanista Cultural, propõe uma reflexão sobre a intimidade entre o ser humano e o planeta, através de uma obra que nasce do encontro entre o saber acadêmico e a experiência vivida. 

O livro parte da pergunta sobre como os espaços atravessam nossa existência e constroem quem somos. Para investigar tal relação, a autora escolhe como campo de estudo as paisagens de café da Mantiqueira de Minas Gerais —que constituem sua origem e memória afetiva. Mais do que cenário, essas paisagens são tratadas como presença ativa, capazes de influenciar vínculos, ritmos de vida, percepções do tempo e formas de relação com o trabalho e com o outro. 

Ao longo do livro, Gabriela conduz o leitor por um percurso que ultrapassa o visível e o tangível. O entorno passa ser compreendido como experiência sentida, atravessada pelo corpo, pelas emoções e pelas narrativas que se constroem no cotidiano. Nesse movimento, ela propõe uma escuta atenta ao que se manifesta nos silêncios, nos gestos repetidos e nas sutilezas do habitar. 

Havíamos chegado ao ponto mais alto das montanhas do cafezal, era a aurora daquele dia, o ar era gélido e o sol despontava no relevo sinuoso (…) Essas paisagens, a contemplação dessas fotografias evoca, em mim, as sensações do meu Corpo-Terra naqueles instantes (…) A vastidão silenciosa retumbante, é em mim que a tenho. Ela ecoa fora pois ressoa cá dentro, há uma frequência vibrando que encontra ressonância com uma frequência que vibra igual em mim, e me captura, igualando: misturo-me, a paisagem me lê e eu me leio nela (Ser-Terra: paisagens do café, p.138) 

Com base na fenomenologia e em diálogos entre arquitetura, geografia humanista e filosofia, a urbanista articula rigor conceitual e delicadeza narrativa. Ao recusar a rigidez exclusivamente técnica, ela aposta em uma linguagem que acolhe o sentir como ferramenta legítima de conhecimento. 

“Este livro nasceu de um desejo inquieto e profundo de compreender como as paisagens afetam nossas existências. Veio também da observação de mim mesma, influenciada pela paisagem habitada em diversos aspectos – as relações estabelecidas com as pessoas e com os espaços, os comportamentos, as nuances de emoções deflagradas por sensações, etc.”, explica Gabriela. 

Ao unir ciência, sensibilidade e poesia, o livro se afirma como um convite à desaceleração e à escuta. Mais do que oferecer respostas fechadas, Ser-Terra: paisagens do café visa reconhecer o que há de invisível no ambiente — e a perceber que compreender o mundo é, também, uma forma de compreender a si mesmo. 

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