Quando a arquitetura encontra o mar

No Aura Paiva, arquitetura e paisagismo constroem uma experiência de moradia em permanente diálogo com a paisagem

Há projetos em que o lugar é apenas o ponto de partida. Em outros, ele participa ativamente da arquitetura. É o que acontece no Aura Paiva, residencial desenvolvido pela Rio Ave em parceria com o Grupo Ricardo Brennand, no litoral sul de Pernambuco. À beira-mar, o empreendimento foi concebido a partir de uma relação estreita entre arquitetura, paisagismo e natureza, explorando luz, ventilação, visadas e continuidade espacial como elementos estruturadores do projeto.

Assinado pelo escritório Polígonos, o conjunto é formado por duas torres de térreo mais sete pavimentos, implantadas em um terreno de mais de 10 mil metros quadrados. A escolha por uma ocupação de baixa densidade, com apenas 40 unidades, permite que a paisagem tenha presença significativa na experiência cotidiana do morador.

A arquitetura se expressa por meio de uma volumetria contemporânea, marcada por um jogo de cheios e vazios e por grandes fitas que percorrem as fachadas. O desenho cria uma composição dinâmica, cujas linhas remetem ao movimento das ondas e à ação constante dos ventos sobre a paisagem litorânea.

Além de criar uma imagem para o edifício, a solução volumétrica organiza a relação entre os espaços. As varandas se alternam e se transpassam, ampliando a percepção de continuidade entre os ambientes internos e externos. A implantação foi estudada para preservar visadas, favorecer a ventilação natural e permitir que a paisagem permaneça protagonista.

É uma arquitetura que se revela de maneiras diferentes ao longo do dia. A incidência da luz sobre os volumes, a sombra projetada pelas varandas e a transparência das aberturas produzem uma fachada em constante transformação, reforçando a ideia de movimento presente no conceito.

Uma arquitetura que se abre para a paisagem

No Aura, o paisagismo não funciona como complemento da arquitetura. Ele participa da definição do projeto desde a implantação. Assinado por Luiz Vieira Arquitetura de Paisagem, o desenho dos espaços livres estabelece uma sequência de transições entre a área pública, os espaços semipúblicos e as áreas mais reservadas do residencial.

Os equipamentos de lazer são distribuídos ao longo do terreno e se abrem para o parque beira-mar, aproveitando as condições naturais de ventilação, insolação e amplitude visual. A estratégia cria uma sucessão de espaços de permanência e convivência em diferentes escalas.

Um dos elementos centrais é o conjunto da piscina, implantado em uma área que combina gramados planos e taludes. A lâmina d’água incorpora borda infinita, duas raias de natação, hidromassagem, prainha, piscina infantil, escada molhada e estar submerso. O desenho não interrompe a paisagem: ao contrário, conduz o olhar para ela.

A vegetação reforça essa integração. A maior parte dos coqueiros existentes foi preservada e será complementada por árvores, palmeiras, arbustos, herbáceas e forrações, priorizando espécies nativas. Sobre a garagem semienterrada, o teto-jardim amplia a presença do verde e contribui para que os veículos permaneçam discretamente incorporados à implantação.

O resultado é uma paisagem que não se limita às áreas ajardinadas. Ela atravessa o projeto, participa dos percursos, enquadra vistas e cria diferentes possibilidades de relação com o exterior.

O interior e o entorno

A mesma busca por continuidade aparece nos interiores. A proposta trabalha com uma materialidade essencialmente sensorial, combinando madeiras naturais, pedras, texturas minerais, tecidos e uma paleta de cores suaves.

A escolha dos materiais procura aproximar o ambiente construído das características naturais do entorno. A madeira introduz calor; as pedras e superfícies minerais acrescentam textura e permanência; elementos orgânicos e tecidos reforçam a sensação de acolhimento.

Nesse contexto, o interior não é concebido como uma oposição ao exterior. A arquitetura procura tornar essa passagem gradual, fazendo com que luz, ventilação, vegetação e vistas participem da composição dos ambientes.

As próprias unidades foram desenhadas para potencializar essa experiência. Pé-direito elevado, amplas varandas e possibilidades de integração entre sala e cozinha ampliam a percepção espacial. Nas unidades duplex, o pé-direito duplo nas salas acrescenta ainda uma dimensão vertical à experiência de morar.

O bem-estar como espaço

Se a paisagem estrutura a arquitetura, o programa de uso amplia a ideia de bem-estar para além das áreas tradicionais de lazer. O projeto reúne mirante com lounges e firepit voltado para o mar, áreas gourmet, piscina, academia, playground, brinquedoteca, espaço para animais e quadra de squash. Mas é no Wellness 360° que essa proposta ganha uma dimensão particular.

Piscina indoor aquecida, salas de massagem, sauna, banheira de crioterapia e hidromassagem formam um núcleo dedicado ao cuidado com o corpo e à recuperação. O programa introduz no espaço residencial ambientes que antes estavam mais associados a hotéis, spas e estruturas especializadas de bem-estar. A arquitetura passa, assim, a organizar não apenas funções, mas diferentes ritmos de vida: convivência, atividade física, contemplação, descanso e recuperação.

Desempenho que nasce do projeto

A preocupação ambiental está incorporada à concepção do Aura desde suas decisões arquitetônicas e construtivas. O projeto do empreendimento recebeu a certificação internacional EDGE, desenvolvida pelo Banco Mundial em parceria com a IFC, que reconhece ganhos mensuráveis de eficiência ambiental. O projeto prevê redução de 35% no consumo de energia, 25,7% no consumo de água e 20% no carbono incorporado aos materiais em comparação com uma edificação convencional.

Entre as estratégias adotadas estão soluções de conforto térmico em fachadas e coberturas, ventilação natural, elementos de sombreamento, vidros de alta performance e iluminação eficiente nas áreas comuns. Para a eficiência hídrica, foram especificados dispositivos como descargas de duplo fluxo, controle de vazão e irrigação automatizada.

Na construção, o uso de lajes nervuradas contribui para reduzir o volume de concreto empregado e, consequentemente, o carbono incorporado aos materiais. São decisões que não aparecem necessariamente como elementos visuais da arquitetura, mas que determinam seu desempenho ao longo do tempo. Nesse sentido, a sustentabilidade deixa de ser uma camada adicionada ao edifício e passa a fazer parte de sua própria lógica de concepção.

Arquitetura como experiência do lugar

Com apartamentos distribuídos entre as tipologias Garden Duplex, Tipo e Cobertura Duplex, o Aura apresenta diferentes formas de relação entre os espaços privados e a paisagem. Nas unidades Garden, as áreas externas e piscinas privativas aproximam ainda mais o cotidiano do verde. Nas coberturas duplex, a verticalidade e os pés-direitos duplos ampliam a experiência espacial.

Mas é no conjunto que o projeto encontra sua principal expressão. Arquitetura, paisagismo, interiores e estratégias ambientais trabalham a partir de uma mesma premissa: construir uma relação mais sensível entre o morar e o território.

No Paiva, onde a presença da natureza é parte fundamental da identidade urbana, o Aura procura fazer com que essa característica ultrapasse a condição de cenário. O mar, a vegetação, o vento, a luz e as vistas passam a integrar a experiência arquitetônica.

Muito além de estabelecer uma forma para o edifício, o projeto propõe uma maneira de ocupar o lugar. Uma arquitetura que se abre para a paisagem, preserva seus elementos naturais e transforma a relação entre dentro e fora em parte essencial da experiência de morar.

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