Convidado pela Serafini, arquiteto apresenta uma síntese entre brutalismo brasileiro, minerais sul-americanos e a herança da arte construtiva nacional
Entrar na Semana de Design de Milão como convidado de uma marca italiana é um feito quase inédito para um designer brasileiro. Foi exatamente assim que o arquiteto e designer Leonardo Zanatta chegou a Milão: pelo convite direto da Serafini, grife italiana especializada em pedras ornamentais de alta qualidade, com sede em Vicenza e galeria na capital lombarda.
A Serafini tem a proposta de convidar designers do mundo inteiro para criar peças em diálogo com o seu catálogo de pedras, um portfólio que circula entre europeus, asiáticos e nomes do design global. Porém, não havia um nome do design brasileiro na seleção. Quando a marca foi à busca de um representante, encontrou Zanatta. A sintonia, segundo ele, foi imediata. “Para um designer brasileiro entrar em Milão já com uma marca italiana é uma coisa muito rara. Normalmente o designer chega lá através de feiras ou por recursos próprios. Receber esse convite foi algo muito especial.”
A coleção se chama Austral, palavra de origem latina que designa o sul, com o objetivo de trazer a criação sobre materiais latino-americanos conduzida por um designer da região. Para isso, Zanatta percorreu todo o catálogo da Serafini e selecionou exclusivamente as pedras extraídas no Brasil e na América do Sul: Granito Azul Bahia do nordeste brasileiro, Pinta Verde do Ceará e outras pedras de extração sul-americana compõem as matérias-primas peças. “O que normalmente acontece é que o material é extraído aqui e trabalhado por designers europeus ou americanos. Nossa região é a fonte de extração. Neste caso, propomos o caminho inverso: um designer brasileiro no controle do processo criativo.”
Zanatta buscou referências em três direções: a arquitetura brutalista paulistana, com suas formas geométricas encaixadas, volumes que se sobrepõem e a estética que os próprios europeus já chamam de brutalismo tropical; o trabalho da artista plástica Lygia Pape, cuja obra explora a tensão entre geometria e materialidade; e o suprematismo russo de Kazimir Malevich, com suas composições tridimensionais que evocam construções em escala reduzida com seus Arkitektons.
O resultado são peças que remetem a objetos de design e arte e fazem referência a projetos arquitetônicos: um aparador cujo tampo parece ser erguido por blocos geométricos; uma mesa de jantar que, invertida, lembra uma maquete de arquitetura; ou um banco que também funciona como mesa de centro. “Quando se tira o tampo do aparador, por exemplo, parece que é realmente o projeto de um edifício, uma maquete em escala menor. É a arquitetura brutalista brasileira em sua essência: formas geométricas encaixadas, sobrepostas, em blocos puros.”
A estreia da Austral na Semana de Design de Milão traz como peça central uma mesa de jantar, escolhida pela Serafini como o item para apresentação da linha ao mercado internacional. A coleção completa inclui ainda banco e mesa de centro, aparador e demais peças, todas disponíveis na galeria da marca em Milão.


