Arquiteta cearense integra grupo de 28 pavilhões estaduais da Bienal, que propõe repensar o morar a partir de cultura, território e clima com o projeto “É o mar”
A Bienal de Arquitetura Brasileira (BAB 2026) estreia hoje (27) ao público, no Pavilhão das Culturas Brasileiras (PACUBRA), no Parque Ibirapuera, em São Paulo, propondo um convite direto: repensar o morar a partir das realidades brasileiras.
Entre 28 pavilhões estaduais e mais de 1.300 propostas inscritas, o Ceará marca presença com um projeto que ultrapassa a forma e se constrói na memória, no afeto e na experiência. É a partir desse olhar que nasce a Casa de Maria, instalação que materializa o projeto “É o Mar”, assinado pela arquiteta Larissa Lima, do escritório ARK Arquitetura & Interiores.
Com 100 m², o espaço recria uma moradia contemporânea completa, com varanda, salas de estar e jantar, cozinha, escritório, quarto com suíte e área de serviço, e convida o visitante a percorrer os ambientes como quem atravessa uma casa viva. Aqui, mais do que observar, a proposta é sentir.
“Pensei em ambientes claros e acolhedores. Se eu tivesse que escolher uma casa para morar, seria uma casa que fizesse sentido na rotina, que trouxesse aconchego no dia a dia. Quis trazer um pouco do mar, dessa simplicidade e organização que a arquitetura pode oferecer”, explica Larissa.
As referências do território cearense atravessam cada detalhe. A rede em fibra natural traduz o vínculo com o fazer manual, enquanto a jangada inspira o desenho do escritório elevado, que parece flutuar, suspenso entre o vento e o horizonte. Nesse espaço, cinco estampas, o sol, o peixe, a lamparina, a jangada e o coração, reforçam o afeto e a hospitalidade do povo cearense.
Pensada como uma experiência sensorial, a casa se constrói na luz, nas texturas e nos vazios que permitem a circulação do ar. A proposta evoca a brisa, a luminosidade suave e a leveza de um lugar onde o tempo desacelera.
Mais do que uma instalação expositiva, a Casa de Maria se ancora em redes da economia criativa local, muitas delas conduzidas por mulheres, ampliando o significado do projeto para além da matéria construída. O nome, inclusive, carrega esse gesto: representa as mulheres cearenses, guardiãs do cotidiano, do cuidado e dos saberes que constroem o lar.
A arquitetura incorpora soluções adaptadas ao clima, como ventilação cruzada, sombreamento e o uso de materiais naturais, criando espaços mais frescos, fluidos e alinhados à rotina. A materialidade reforça essa proposta ao combinar cerâmica artesanal, com destaque para os revestimentos da Lepri aplicados nas paredes do banheiro, madeira, fibras naturais e elementos de baixo impacto, em uma curadoria que valoriza a produção cearense.
O projeto reúne peças de artistas como Henrique Viudez, designers como Léo Ferreiro e Érico Gondim, além de criações do estúdio Desconexo Design e obras da Galeria Leonardo Leal. A presença de arte têxtil, cestaria e mobiliário autoral ajuda a construir uma atmosfera que remete ao litoral de forma sensível e contemporânea.
Ao representar o Ceará na BAB 2026, Larissa Lima leva à Bienal uma arquitetura que nasce do contexto, climático, social e cultural, e se traduz em um morar mais simples, sensível e profundamente conectado ao território. Em “É o Mar”, habitar deixa de ser apenas ocupar um espaço e passa a ser uma experiência.


