A artista Jota Mombaça faz a curadoria da coletiva que propõe e reflete sobre a destruição e reinvenção do mundo que conhecemos
Desejo negativo segue aberta à visitação até 24 de janeiro na galeria Martins&Montero. A mostra coletiva investiga a teoria queer para traçar uma crítica às lógicas da reprodutibilidade como princípio normativo que sustenta o mundo hegemônico, colonial, estabelecido.
Com curadoria da artista Jota Mombaça, a exposição propõe um exercício de recusa e invenção que lança, sobre o presente, um “raio negativo” – expressão que evoca não só o desejo pela destruição do mundo tal qual o conhecemos, mas também o desejo de interromper a recorrência das formas impostas de existir. Os artistas presentes cultivam, em suas práticas, esse gesto de desfazimento: não como negação estéril, mas como abertura para imaginar o que emergiria depois.
O ponto de partida é a obra do artista Hudinilson Jr., figura incontornável da arte brasileira que trabalhou com o corpo, a cópia e o cotidiano como territórios de experimentação. Sua relação com o xerox e a xerografia forma uma poética da reprodução desviada que distorce, desmonta, reencena a sua própria imagem.
A curadoria se aproximou de Hudinilson Jr. também por meio de uma visita a seu apartamento-ateliê, ainda impregnado por sua presença. A exposição propõe uma espécie de reimaginação sensível desse espaço íntimo: acúmulos, assimetrias, camadas de vida que se sobrepõem à investigação com os limites do corpo e do espaço.
A exposição reúne, ainda, duas artistas de gerações distintas da sua, cujos trabalhos se entrelaçam na mesma inquietação com o mundo e sua reprodução compulsória. Bruna Kury, artista carioca, transita por colaborações e coletividades, como o coletivo Coiote. Sua obra tensiona os regimes de autoria e de poder, criando alianças com corpos em dissidência. Zines, frases contestatórias e gestos táticos compõem um repertório de insurgência que faz da reprodutibilidade um campo de disputa estética e política. Tetê, artista paraense, opera entre a poesia visual e a fotografia. Seus poemas- diagramas e publicações – tanto impressas quanto digitais – constroem mapas afetivos que desmontam a linearidade do sentido. Sua pesquisa atravessa a linguagem, a imagem e o desejo de reescrever o mundo desde a sua fratura.
Entre esses três artistas pulsa um movimento antissocial, no sentido mais profundo da palavra: o de recusar o pacto com uma sociedade que exclui, normatiza e corrige. Há, nas obras dos três artistas, o desejo de que o mundo “se desfaça” – ou ao menos, que deixe de se repetir como está. Um desejo negativo e vital: não pelo fim em si, mas pelo fim como abertura para outra coisa.

