O luxo dos móveis em madeira de demolição

A conscientização ultrapassa o simples fato de se ter uma bela peça de origem natural

Foto: Sacada

por Silma Araújo

Os muitos anos de extrativismo provocaram degradação ambiental, com perdas de biomas essenciais ao planeta. As florestas brasileiras per- deram, no período entre 1990 e 2010, por exemplo, aproximadamente 822 mil km², que foram sendo ocupados pela pecuária e cultivo de grãos como soja e milho, conforme dados coletados pelo Ministério do Meio Ambiente.

Preocupadas com essa realidade e intencionando transformar os hábitos de consumo indiscriminado, fábricas moveleiras começaram a criar e desenvolver produtos a partir de madeiras de demolição. Essa atitude ecológica faz uso de madeiras derivadas de resíduos florestais e de procedência reconhecida, provenientes de antigos móveis, casarões, moinhos e até igrejas.

O conceito de introduzir na produção móveis oriundos de madeira de demolição carrega também a imagem de peças feitas de forma quase artesanal, o que torna o projeto muito particular.

Os arquitetos Josete Garcez e Adriano Garcez, do escritório Garcez Arquitetura, defendem a instalação de itens com tais características, afirmando que a conscientização ultrapassa supremamente o simples fato de se ter uma bela peça de origem natural.

Para Josete Garcez, a tendência de explorar os recursos visuais e conceituais desses produtos está cada dia mais disseminada e aceita pelos consumidores. “A mentalidade está mudando. Havia uma resistência ao uso de material mais rústico, porque se acreditava que apenas casas de fazenda e de praia poderiam usar madeira de demolição. Entretanto, hoje está associada à rusticidade do natural, ao trabalho de ecosustentabilidade, podendo fazer parte da vida de todos”, observa.

“A consciência é de que não se trata de um recurso démodé, visto que a intenção é valorizar a natureza e a rusticidade suave com o retorno às origens. Afinal, o moderno não é ser somente high tech, mas, sim, ter o equilíbrio entre as variadas formas de composições, principalmente se pensarmos que a casa é um lugar de afetos e que a madeira é um dos materiais que mais conferem isso”, defende.

A arquiteta Josete Garcez ratifica a orientação, lembrando o que disse Leonardo Da Vinci, no período do Renascimento, ao afirmar que “a simplicidade é o último grau de sofisticação”. E acrescenta, esclarecendo que a madeira que conhecemos também pode ter origem industrial, porém trabalhada como se fosse de demolição. “Ela pode ser assim denominada, contudo pode ser um móvel que sofreu acabamento especial para ter o aspecto de madeira de demolição, o que não a descaracteriza, pois o que realmente importa é o seu conceito, visto que sua origem é nobre”, explica.

Adriano Garcez verifica que aqueles que lançam mão dos móveis de madeira de demolição buscam mais que a valorização do objeto e do ambiente em si. “São frequentemente procurados por usuários que buscam concepções originais compatíveis com a sua consciência ambiental e modo de viver”, revela.

Para ele, ao usar esses elementos de madeira, é fundamental o equilíbrio, de forma a marcar apenas com algumas peças no ambiente, para que não fique carregado, com ar de decoração temática. “É interessante apenas explorar pontualmente como em um painel, um tampo de mesa, uma peça solta, configurando uma produção nobre”, orienta.

“A ideia principal é trazer a natureza para dentro de casa. Sem contar que trata-se de uma ferramenta atemporal, visto que desde sempre a madeira foi explorada no mobiliário. E contrariando o que alguns acreditam, tem como ser clean com madeira de demolição”, finaliza Adriano.”

Matéria publicada na versão impressa da revista Sacada.

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