Sírio-Libanês entra em consórcio Brasil-Holanda que vai transformar pátio de escola em Heliópolis em refúgio verde contra o calor extremo

Ao lado da USP, Insper, TU Delft e de centros de pesquisa holandeses, o Sírio-Libanês integra o GreenCare4Health, consórcio internacional financiado pela FAPESP e pela agência holandesa NWO. São cinco anos de pesquisa e intervenção para produzir a evidência que ainda falta ao Brasil sobre calor extremo, envelhecimento e desigualdade urbana, com o objetivo de transformá-la em política pública de saúde.

O Sírio-Libanês acaba de integrar o GreenCare4Health, consórcio internacional de pesquisa e intervenção que vai transformar o pátio de uma escola municipal em Heliópolis, na zona Sudeste de São Paulo, em um espaço verde comunitário projetado para reduzir o estresse térmico e proteger a saúde da população local. O projeto tem duração de cinco anos e é financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e pela Organização Holandesa para a Pesquisa Científica (NWO).

“Nossa responsabilidade com a sociedade vem desde a nossa fundação. Sempre fomos guiados pelo bem comum, pela excelência e pelo propósito de levar vida plena e digna a um número cada vez maior de pessoas. Heliópolis se junta a várias outras iniciativas em que transformamos conhecimento científico e solidariedade em saúde para quem mais precisa”, diz Denise Jafet, presidente da Sociedade Beneficente de Senhoras Hospital Sírio-Libanês.

O aquecimento global já é um grave problema de saúde pública. Um estudo publicado na revista Nature Climate Change, conduzido pela rede internacional Multi-Country Multi-City com dados de óbitos de 732 cidades em 43 países, concluiu que 37% de todas as mortes por calor registradas entre 1991 e 2018 no mundo são atribuíveis ao aquecimento global de origem humana, e não a variações naturais de temperatura. No Brasil, as mudanças climáticas já respondem por cerca de 1% das mortes classificadas como “naturais”.

Os grupos mais atingidos são os extremos da vida: crianças menores de 5 anos e idosos acima dos 70, cujos mecanismos de termorregulação (sudorese) ainda não amadureceram ou já perderam eficiência. Sob calor intenso, a pressão arterial tende a cair e precisa ser compensada por aceleração dos batimentos cardíacos; a perda de líquidos aumenta a viscosidade do sangue e favorece a formação de trombos, além de comprometer a função renal. Para quem já tem doença cardiovascular, renal ou diabetes, a onda de calor deixa de ser um incômodo e passa a ser risco de morte.

O problema é agravado pela subnotificação. Como o calor raramente aparece como causa direta na declaração de óbito, o impacto real das ondas de calor sobre a mortalidade brasileira é sistematicamente subestimado.

E o calor não se distribui de forma igual pela cidade. Áreas de alta densidade demográfica e baixa arborização, que são geralmente as regiões de menor renda, são mensuravelmente mais quentes que bairros arborizados de alto padrão. Entre as medidas de mitigação disponíveis ao poder público estão sistemas de alerta, planos de ação e refúgios térmicos, mas a resposta estrutural para as ilhas de calor urbanas é uma só: arborização.

Heliópolis 

Heliópolis é hoje a favela de maior extensão territorial do estado de São Paulo, a cerca de 8 km do centro da capital, com infraestrutura deficitária e altíssima densidade construtiva. Os números do território explicam a escolha do piloto: a cobertura verde é de 1,8%, contra 38,1% em Alto de Pinheiros, bairro usado como parâmetro de comparação na modelagem do projeto. A densidade populacional chega a 2.000 habitantes por hectare. Quase todo o espaço disponível dentro das quadras do bairro é ocupado por construções, restando poucos espaços livres. Nesse sentido, há reduzida área de solo permeável ou sombreado entre as edificações.

Nesse cenário, o pátio da EMEF Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior (Gonzaguinha) é uma das poucas superfícies abertas do território. A escola já vinha sendo usada informalmente pela comunidade aos finais de semana como espaço de lazer, por iniciativa da própria direção, um indício de demanda reprimida por área verde que o projeto pretende transformar em infraestrutura permanente de bem-estar à população.

Um laboratório vivo de clima, saúde e comunidade

O objetivo central do consórcio é desenvolver, testar, implantar e tornar replicável um modelo escalável de conversão de pátios escolares em espaços verdes comunitários — os chamados green commons — operando sob a metodologia de Laboratórios Vivos Urbanos (Urban Living Labs), que combina intervenção física, medição climática em tempo real, participação da comunidade e governança compartilhada.

A aposta científica é que esses micro-parques funcionem como Comunidades de Cuidado Verde: espaços que melhoram indicadores de saúde da população, reduzem a demanda por serviços médicos durante ondas de calor e criam condições de cidadania e subsistência futura. O trabalho acontece simultaneamente no Brasil e na Holanda, permitindo comparação entre contextos urbanos distintos.

O consórcio atua em duas escalas complementares. Na macro, emprega análise espacial e quantitativa para avaliar o impacto do verde urbano sobre estresse térmico, mortalidade e qualidade de vida, examinando também como os arranjos de governança em saúde tratam, ou deixam de tratar, a mitigação do calor. Na micro, opera o laboratório vivo em Heliópolis, com monitoramento climático em tempo real e cocriação de soluções junto à comunidade escolar.

Envelhecimento saudável e equidade intergeracional

Dentro desse desenho, o eixo de Envelhecimento Saudável e Equidade Intergeracional em Saúde é conduzido pelo Sírio-Libanês e articula três frentes de trabalho, que avançam em paralelo ao longo dos cinco anos do projeto.

A primeira frente tem como premissa um diagnóstico de base: uma avaliação geriátrica adaptada à resiliência climática, aplicada aos idosos de Heliópolis para mapear tecnicamente a vulnerabilidade térmica do território e estabelecer a fotografia do “antes”, que permitirá comparação depois da intervenção. Sob liderança científica e médica do Sírio-Libanês, esse levantamento evolui para uma vigilância clínica ativa, com monitoramento contínuo de eventos agudos e de declínio funcional sensíveis ao calor. A proposta é que parte da coleta seja feita pelos próprios adolescentes da escola, em micro avaliações digitais que ampliam a escala do rastreio e geram dados territoriais em volume inédito. O destino desse acervo é um protocolo clínico preditivo integrado à Atenção Primária à Saúde, com potenciais orientações às equipes de Saúde da Família que atuam no território, assim como publicações científicas.

A segunda frente trata de saúde mental, isolamento social e pertencimento — e é onde está o diferencial do desenho. Em vez de olhar apenas para a população idosa, o projeto constrói a intervenção na relação entre gerações, de crianças do ensino fundamental aos idosos do entorno. O modelo é aplicado com métricas validadas de empatia, como as escalas CARE e Jefferson, de humor, GDS e avaliação cognitiva 10-CS, acompanhadas por um mapeamento afetivo da relação entre clima e pessoas. Na prática, os idosos assumem o papel de “Mestres do Verde”: tornam-se educadores ambientais das novas gerações e lideram oficinas de saúde e bem-estar. A hipótese a ser testada é que o arranjo funcione como tecnologia social de proteção psíquica, mensurável na redução do isolamento social, em melhoria cognitiva e de humor, bem como na promoção de valores humanos e propósitos de vida para as gerações envolvidas.

“Envelhecer bem é acordar e ter um propósito de vida a cada dia. É ter para onde ir, o que fazer e quem procurar. Quando a gente coloca uma pessoa idosa para ensinar uma criança a cuidar de uma árvore, está tratando de saúde mental, de propósito e do clima  ao mesmo tempo”, afirma Denise Jafet.

A terceira frente cuida da governança local e da mobilização do território. Envolve estruturar o espaço escolar como Laboratório Vivo Urbano e oferecer capacitação climática a lideranças comunitárias, Agentes Comunitários de Saúde e demais atores locais, de modo que a apropriação do espaço seja liderada pelos próprios moradores, em especial pessoas idosas.

O acompanhamento inclui rastreio longitudinal de fragilidade e multimorbidade, indicadores de saúde mental e de isolamento social, avaliação de habilidades neurocognitivas sob estresse térmico, taxa de ocupação da infraestrutura verde e, ao final, um framework de inteligência preditiva para que a Atenção Primária possa agir antes das ondas de calor.

Por fim, entre os resultados esperados ao longo dos cinco anos do projeto estão a redução de até 5 °C na temperatura local do espaço intervencionado, mais de 2.500 beneficiários diretos, queda de 50% nas faltas escolares e a consolidação de uma escola-piloto replicável.

Do piloto à política pública

A ambição declarada do consórcio não termina no muro da escola. Os protocolos desenvolvidos têm como objetivo orientar o SUS e outros sistemas de saúde a responder de forma mais eficiente às ondas de calor, transformando uma intervenção física localizada em um framework preditivo exportável. A escala prevista vai do piloto em Heliópolis às políticas municipais de São Paulo e, na sequência, à replicação internacional do modelo.

É também um trabalho de epidemiologia urbana sem precedente conhecido na América do Sul, ao integrar, sob um mesmo desenho de pesquisa, intervenção urbanística, medição microclimática e desfechos clínicos acompanhados de forma longitudinal.

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