Zanine Caldas – Criação de mundos na Casa-ateliê Tomie Ohtake

Com curadoria de Sabrina Fontenele, exposição reúne mobiliário, maquetes, projetos, fotografias e documentos que percorrem a trajetória do arquiteto e designer brasileiro

Ministério da Cultura, Nubank e Instituto Tomie Ohtake têm o prazer de apresentar, de 13 de setembro a 7 de novembro de 2026, Zanine Caldas – Criação de mundos, exposição que dá continuidade à nova fase da Casa-ateliê Tomie Ohtake, antiga residência da artista, no Campo Belo, em São Paulo. Com curadoria de Sabrina Fontenele e assistência de Lahayda Mamani Poma, a mostra reúne mobiliário, maquetes, desenhos, projetos arquitetônicos, fotografias, filmes, documentos e outros registros que percorrem diferentes momentos da trajetória de José Zanine Caldas (1919–2001). Organizada em quatro núcleos – Raiz, Tronco, Abrigo e Horizonte –, a exposição apresenta as diferentes frentes de atuação de Zanine e as relações que estabeleceu entre arquitetura, design, artesania, educação e preservação ambiental.

Arquiteto autodidata, maquetista, designer e professor, Zanine construiu sua formação a partir da experiência prática, da observação dos lugares por onde passou e do contato com diferentes modos de trabalhar a matéria. Nascido em Belmonte, na Bahia, aproximou-se ainda jovem dos processos construtivos e do trabalho com a madeira. Mais tarde, conviveu e colaborou com nomes importantes da arquitetura e da cultura moderna brasileira, entre eles Lucio Costa, Oscar Niemeyer, Lina Bo Bardi, Vilanova Artigas, Joaquim Tenreiro e Sergio Rodrigues. Esse repertório de referências, encontros e experiências é apresentado em Raiz, primeiro dos quatro núcleos da exposição.

Em Tronco, a relação de Zanine com a madeira atravessa diferentes momentos de sua produção. Nos anos 1940, enquanto trabalhava como maquetista, buscou reduzir o desperdício de chapas de compensado na fabricação de móveis, pesquisa que resultaria na experiência da Móveis Artísticos Z. Décadas depois, passou a reutilizar materiais de antigos casarões demolidos de várias regiões do Brasil, sobretudo nas residências que construiu na Joatinga, bairro carioca onde viveu, e em Nova Viçosa, no litoral da Bahia, começou a trabalhar com raízes e grandes troncos descartados ou queimados pela indústria madeireira. Surgiram daí os chamados móveis-denúncia, que transformavam esses resíduos em mobiliário e chamavam atenção para a destruição das florestas brasileiras.

A arquitetura residencial ganha destaque em Abrigo. Zanine desenvolveu uma forma de projetar em que as características do terreno e dos materiais disponíveis orientavam as decisões construtivas, aproximando o desenho do canteiro e valorizando o conhecimento de artesãos, carpinteiros e outros trabalhadores. Maquetes e protótipos eram centrais nesse processo não apenas para representar projetos, mas para testar soluções e investigar materiais. Desenhos, plantas, fotografias e maquetes reunidos na exposição permitem acompanhar esse modo de trabalhar, presente em parte das cerca de quinhentas casas que projetou no Brasil e no exterior.

Por fim, Horizonte aborda sua atuação como educador e sua compreensão da arquitetura como instrumento de transformação social. Documentos e registros recuperam experiências na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAUUSP), na Universidade de Brasília (UnB) e no Centro de Desenvolvimento das Aplicações das Madeiras do Brasil (DAM), revelando como ensino, pesquisa construtiva e questões ambientais também atravessaram sua trajetória.

Para Sabrina Fontenele, essa dimensão da obra ajuda a compreender a atualidade de Zanine diante dos debates ambientais contemporâneos. “Mais do que desenhar formas, Zanine propôs um modo ético de habitar o mundo, em que a matéria e a imaginação se fundem para dar resposta aos dilemas do seu tempo e da realidade brasileira”, afirma a curadora.

Zanine na Casa-ateliê

A realização de Criação de mundos na Casa-ateliê Tomie Ohtake estabelece ainda um diálogo entre a exposição e a história do próprio espaço, marcado pelo trabalho e pela vida da artista. Foi ali que Tomie produziu, recebeu artistas, arquitetos e outros interlocutores e desenvolveu parte importante de sua trajetória. A exposição de Zanine dá continuidade à proposta de ativar a casa a partir de encontros entre diferentes práticas, gerações e campos de conhecimento. Sem buscar aproximações formais entre suas obras, Criação de mundos permite observar pontos de contato entre as trajetórias de Zanine e Tomie, sobretudo na importância atribuída à experiência, à experimentação e ao próprio fazer. Em percursos distintos, ambos desenvolveram modos de trabalho atentos aos materiais e abertos à descoberta ao longo do processo. A mostra reforça, assim, a Casa-ateliê como um espaço em que arquitetura, design, arte e memória podem estabelecer novas relações.

Programa Público

A esta exposição soma-se um programa público de atividades que amplia as aproximações com a trajetória, a produção e o legado de Zanine Caldas. Aos sábados e domingos, às 11h e às 15h, o público poderá participar de visitas mediadas à mostra, sem necessidade de inscrição prévia. No dia 19 de setembro, às 15h, ocorre a conversa Entre a técnica e a invenção, reunindo Maria Cecília Loschiavo dos Santos e Conrado Vivacqua Raymundo dos Santos, com mediação de Lahayda Mamani Poma. No sábado seguinte, 26 de setembro, às 15h, Talles Lopes e Laura Cosendey participam da mesa Matéria viva: entre a arte e a arquitetura, com mediação de Amanda Sammour.

Em 24 de outubro, a programação começa às 11h, com uma oficina conduzida pelo educativo, e segue às 15h com a conversa Projetar mundos, criar mundos, reunindo Pedro Alban, Ligia Zilbersztejn e Rodrigo Ohtake, com mediação de Sabrina Fontenele. O programa se encerra em 7 de novembro, às 15h, com Zanine na escala do contemporâneo, conversa entre Amanda Carvalho e Sabrina Fontenele, mediada por Amanda Sammour, que propõe refletir sobre a permanência e os desdobramentos da obra de Zanine no presente.

A exposição Zanine Caldas — Criação de mundos é uma realização do Ministério da Cultura, via Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet) e do Instituto Tomie Ohtake, em parceria com o Instituto José Zanine Caldas; com patrocínio do Nubank, nosso mantenedor institucional e apoio da galeria Diletante, da dpot e da ETEL.

Leia também

Em destaque