Por Diego Mendes, CEO da ConstruCode

Programa Minha Casa Minha Vida – Luís Correia/PI
O governo federal tem uma meta: 3 milhões de unidades habitacionais contratadas até o final de 2026. O orçamento do Minha Casa Minha Vida em 2025 foi de R$ 180 bilhões. O déficit habitacional absoluto caiu de 6,21 milhões para 5,97 milhões de domicílios entre 2022 e 2023, o menor patamar histórico, segundo a Fundação João Pinheiro. São números expressivos, e escondem um problema que o setor não está discutindo com a seriedade que merece: a demanda está colocada, o dinheiro está comprometido, e a capacidade de entrega segue sendo o ponto fraco que ninguém quer nomear.
Sou engenheiro civil antes de ser fundador. Trabalhei em campo, acompanhei obras de perto e aprendi que o gargalo da construção civil raramente está nos recursos financeiros. Está na execução. E execução, no Brasil, ainda depende de um modelo operacional que não evoluiu na mesma velocidade que a ambição política do setor.

O setor de construção civil cresceu 2% no terceiro trimestre de 2025 e gerou mais de 192 mil empregos com carteira assinada naquele ano. É o maior motor da economia real do país. E ainda opera, em larga escala, com plantas impressas, versões de projeto desatualizadas circulando em campo, e decisões sendo tomadas com base em informações que chegam atrasadas ou simplesmente erradas. Isso não é um julgamento moral sobre o setor. É uma observação de quem digitalizou mais de 6 mil obras e viu o mesmo padrão se repetir: a informação existe, mas não flui. Ela fica presa em pastas de e-mail, em drives pessoais, em grupos de WhatsApp e na cabeça do engenheiro que conhece o projeto melhor que qualquer sistema.
O problema é que projetos de habitação popular, por sua natureza, têm pressão de prazo, custo e escala que não combinam com a imprecisão operacional. Quando uma obra de alto padrão atrasa, o incorporador negocia. Quando uma obra do MCMV atrasa, uma família fica esperando a casa que o governo prometeu. E essa família, na maior parte dos casos, não tem outra opção.

Minha Casa, Minha Vida em Eunápolis (Bahia)
A isso se soma um dado que o setor conhece mas raramente coloca no centro do debate: a força de trabalho está envelhecendo. Levantamentos encomendados pelo SindusCon-SP mostram que a idade média do trabalhador da construção civil já ultrapassou os 40 anos, e a entrada de jovens qualificados no setor não acompanha a velocidade de saída dos mais experientes. Ao mesmo tempo, segundo o McKinsey Global Institute, a produtividade da construção civil cresceu entre 0% e 1% ao ano nas últimas duas décadas, enquanto a manufatura avançou cerca de 3% a 3,6% no mesmo período. O Brasil quer dobrar o ritmo de entrega de moradias sobre uma base de produtividade que praticamente não se moveu, com uma força de trabalho que está ficando mais escassa e mais cara a cada ciclo.
Isso só fecha se a tecnologia parar de ser acessório e virar infraestrutura operacional, inclusive no segmento habitacional popular, que historicamente ficou fora da digitalização porque “não comporta” o custo de ferramentas pensadas para obras de outro porte. Não estou falando de drone ou realidade aumentada. Estou falando do básico que ainda falta: uma fonte única de informação que qualquer profissional no canteiro consiga acessar, em tempo real, com a versão correta do projeto. Rastreabilidade de decisões. Visibilidade de cronograma. Antecipação de risco antes que ele vire custo. A ConstruCode opera em obras de diferentes portes e perfis justamente porque esse problema não é exclusivo de grandes construtoras. Ele está em todo canteiro onde a informação precisa circular entre muitas pessoas ao mesmo tempo.
O Brasil tem recursos, tem demanda, tem política pública. A capacidade operacional para entregar essas moradias com consistência é o que ainda está em construção. Três milhões de moradias é uma meta que o país precisa alcançar. A pergunta que fica é direta: com que processo vamos construí-las?

Diego Mendes, CEO da ConstruCode
Diego Mendes é CEO e fundador da ConstruCode, construtech brasileira focada em gestão de projetos e obras na construção civil. Engenheiro civil e especialista em transformação digital do setor, fundou a empresa em 2018 após identificar uma dor recorrente no mercado: a ineficiência na gestão de documentação, tarefas e comunicação nas obras. A plataforma está presente em mais de 6 mil empreendimentos no Brasil e foi eleita TOP 1 Construtech pelo Ranking Open 100 Startups por cinco anos seguidos, de 2021 a 2025.
